terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A MENINA FERNANDA

No passado dia 12 faria 102 anos se fosse viva! A menina Fernanda como era tratada pelas pessoas que a conheciam na sociedade madeirense, nasceu em 1919. Filha de um abastado comerciante de vinhos com escritório e adegas ali num canto da Rua do Seminário, o Francisquinho do Terno assim era conhecido fruto de dois casamentos teve nove filhos. Cinco raparigas e 4 rapazes, todos eles estudaram e tiraram os seus curso. As meninas na Apresentação de Maria, os rapazes no extinto Externato Lisbonense. Fernanda foi para Lisboa e tirou o Curso de Assistente Social no Largo do Mitelo. Foi a primeira fornada de Assistentes Sociais que se realizou em Portugal. Depois foi trabalhar para Setúbal, uma cidade então muito pobre e como uma população feminina muito dedicada à industria conserveira. Regressou à Madeira após a 2ª. Grande Guerra e deu aulas em Santana e lições de Francês. Mais tarde, após o meu nascimento e encontrando-me com uma grave crise asmática às portas da morte, fui levado a batizar à pressa e a menina Fernanda assumiu à última da hora que queria ser madrinha e mãe adotiva. E assim foi! Durante muitos anos, foi tudo na minha vida até ao seu final nos anos 80´. Com ela vivi, deu-me a educação, orientou-me ao longo da vida, ajudou-me nos maus momentos, dedicou uma paixão ilimitada. 

Com ela aprendi a ler e a escrever, deu-me os primeiros conhecimentos de francês, e com ela viajamos pelo mundo inteiro através dos livros que me oferecia ou que requisitávamos em grandes doses na Biblioteca Calouste Gulbenkian, então instalada em salas do edifício da Câmara Municipal do Funchal. Viajamos com Verne, com Vitor Hugo e todos os clássicos franceses. Descobrimos Tolstoi e a grande Russia, pelos caminhos da Amazónia com Ferreira de Castro, com os escritores ingleses. Grande apaixonada pelo cinema, fez-se sócia do Cine Forum do Funchal e delirava com Fernandel e Hulot. Desde muito pequeno, calcorreamos caminhos, veredas, subimos vezes sem conta ladeiras desde a Eira do Serrado atá à baixa da cidade do Funchal. Dedicou-se décadas à Freguesia de Santo António, no então Postos Rurais. Com ela vivíamos os presépios no Trapiche, o Asilo do Funchal, A Escola de Surdos Mudos, e imensas instituições madeirenses. Mais tarde, coube-lhe a tarefa de tratar dos imensos doentes madeirenses que por impossibilidade de tratamentos médicos na região, teriam de se deslocar para Lisboa nos navios da E.I.N. - Empresa Insulana de Navegação, nos navios Angra do Heroísmo e Funchal. Iamos buscar os doentes ao  Hospital dos Marmeleiros e levá-los a bordo, e foram centenas tanto da Madeira como dos Açores. Adorava passear no cais da Pontinha, ver a cidade do outro lado e muitas vezes ficávamos até ao lusco-fusco vendo o imenso casario e as artérias citadinas iluminarem-se. Adorava Cousteau e as suas façanhas na investigação marítima. Com ela aprendi o gosto pelo mar, pelo imaginário das grandes viagens. Se fosse viva faria 102 anos. Bem haja!    

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