quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

TARDES DE NOSTALGIA

 

TARDES DE NOSTALGIA

 Seria sábado possivelmente! Pela tarde e se houvesse paquetes no molhe da Pontinha, haveria com certeza serviço de lanchas em constante vai e vem entre o Molhe e o Cais da Cidade. Aproveitávamos o velho gasolina para espairecer um pouco no novo molhe recentemente ampliado em 1963. A lancha ronronava sonhando grandes viagens transatlânticas que não passavam de idas e vindas, passageiros que procurando ganhar tempo na longa volta pela estrada da Pontinha, faziam em pouco mais de 10 minutos o percurso rápido e sem pó pela velha estrada muitas vezes poeirenta e onde camiões espalhavam palha e pó à sua passagem. Já no molhe, subíamos a escadaria que dá acesso ao farolim do porto. Aí ficávamos sentados a ver todo o buliço do porto, os passageiros ora subindo ora descendo as escadarias dos navios, o movimento de táxis e de autocarros de turismo que davam apoio aos diversos navios turísticos. Os cargueiros e navios mistos, esses com os paus dos guindastes pareciam dançar com caixas de madeira, bagagens diversas, fardos de palha e até gado bovino vivo vindo dos Açores. Conforme o navio encostado, sabíamos os seus destinos, entradas e saídas, horários etc. Bastava o radar de bordo começar a trabalhar para que soubéssemos que determinado navio estaria em breve de saída. O ronronar dos rebocadores, das diversas lanchas com o stafe das companhias de navegação, os pilotos, a policia marítima etc., tudo acompanhava o protocolo de entradas e saídas do tráfego marítimo. No alto da muralha, junto ao pipeline passávamos a tarde sonhando grandes viagens. A minha tia escrevia poesia num gasto bloco de apontamentos com um daqueles lápis fininho da Viarco comprado possivelmente na Papelaria do Colégio ou no Bazar do Povo. Por vezes, passávamos longos períodos de silêncio, até a tarde começar a perder luminosidade, as luzes da cidade e do casario do anfiteatro do Funchal, começar a acender como estrelinhas no límpido céu. Era o sinal de regressarmos a casa, de calcorrear todo a estrada e de subir a íngreme Estrada Carvalho Araújo. No topo, a velha piscina do Hotel Atlântico, do Savoy eram o epílogo do sábado e do jantar à espera na velha cozinha. Tempos em que os dois sonhavam vezes sem fim em sair da ilha, contudo só eu o fiz. Anos mais tarde, eu não conseguia adaptar-me a cidades grandes, cidades sem mar e sem sonhos. Então voltei, nostalgicamente continuei a volta dos tristes até à partida definitiva da minha tia. Eu continuei a fazer o mesmo percurso anos a fio dialogando comigo mesmo, fazendo de conta que continuava acompanhado do seu bloco de apontamentos, das suas poesias nostálgicas e palavras ternurentas

 

DIA DE SÃO VAPOR É DIA DE FESTA

 

Dia de São Vapor era dia de festa na cidade do Funchal. Foto Dixon - 1962. Chegada do navio Funchal da Empresa Insulana de Navegação ao molhe da Pontinha.  

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A MENINA FERNANDA

No passado dia 12 faria 102 anos se fosse viva! A menina Fernanda como era tratada pelas pessoas que a conheciam na sociedade madeirense, nasceu em 1919. Filha de um abastado comerciante de vinhos com escritório e adegas ali num canto da Rua do Seminário, o Francisquinho do Terno assim era conhecido fruto de dois casamentos teve nove filhos. Cinco raparigas e 4 rapazes, todos eles estudaram e tiraram os seus curso. As meninas na Apresentação de Maria, os rapazes no extinto Externato Lisbonense. Fernanda foi para Lisboa e tirou o Curso de Assistente Social no Largo do Mitelo. Foi a primeira fornada de Assistentes Sociais que se realizou em Portugal. Depois foi trabalhar para Setúbal, uma cidade então muito pobre e como uma população feminina muito dedicada à industria conserveira. Regressou à Madeira após a 2ª. Grande Guerra e deu aulas em Santana e lições de Francês. Mais tarde, após o meu nascimento e encontrando-me com uma grave crise asmática às portas da morte, fui levado a batizar à pressa e a menina Fernanda assumiu à última da hora que queria ser madrinha e mãe adotiva. E assim foi! Durante muitos anos, foi tudo na minha vida até ao seu final nos anos 80´. Com ela vivi, deu-me a educação, orientou-me ao longo da vida, ajudou-me nos maus momentos, dedicou uma paixão ilimitada. 

Com ela aprendi a ler e a escrever, deu-me os primeiros conhecimentos de francês, e com ela viajamos pelo mundo inteiro através dos livros que me oferecia ou que requisitávamos em grandes doses na Biblioteca Calouste Gulbenkian, então instalada em salas do edifício da Câmara Municipal do Funchal. Viajamos com Verne, com Vitor Hugo e todos os clássicos franceses. Descobrimos Tolstoi e a grande Russia, pelos caminhos da Amazónia com Ferreira de Castro, com os escritores ingleses. Grande apaixonada pelo cinema, fez-se sócia do Cine Forum do Funchal e delirava com Fernandel e Hulot. Desde muito pequeno, calcorreamos caminhos, veredas, subimos vezes sem conta ladeiras desde a Eira do Serrado atá à baixa da cidade do Funchal. Dedicou-se décadas à Freguesia de Santo António, no então Postos Rurais. Com ela vivíamos os presépios no Trapiche, o Asilo do Funchal, A Escola de Surdos Mudos, e imensas instituições madeirenses. Mais tarde, coube-lhe a tarefa de tratar dos imensos doentes madeirenses que por impossibilidade de tratamentos médicos na região, teriam de se deslocar para Lisboa nos navios da E.I.N. - Empresa Insulana de Navegação, nos navios Angra do Heroísmo e Funchal. Iamos buscar os doentes ao  Hospital dos Marmeleiros e levá-los a bordo, e foram centenas tanto da Madeira como dos Açores. Adorava passear no cais da Pontinha, ver a cidade do outro lado e muitas vezes ficávamos até ao lusco-fusco vendo o imenso casario e as artérias citadinas iluminarem-se. Adorava Cousteau e as suas façanhas na investigação marítima. Com ela aprendi o gosto pelo mar, pelo imaginário das grandes viagens. Se fosse viva faria 102 anos. Bem haja!    

A LARANJEIRA QUE NÃO QUERIA CRESCER

 

A LARANJEIRA QUE NÃO QUERIA CRESCER

 

 O jardim tinha duas grandes tangerineiras que faziam sombra no Verão. Nos canteiros e em vasos espalhados, as plantas cresciam quase sem controlo. O que desse logo se veria! Certo dia, e após conversa com um amigo meu o Senhor Secundino ou Dino para os amigos falou-me de plantas anãs, do seu desenvolvimento e todas as fases que transformavam árvores em miniaturas, minúsculas. E ele era o pioneiro na Madeira deste tipo de cultura. Ele tinha-se dedicado durante alguns anos a estudar e aperfeiçoar em Bruxelas e a sua “bagagem cultural” era realmente impressionante. Nos anos 70 do século passado, começaram a surgir no mercado nacional, os primeiros bonsais a preços mais acessíveis e como tal, compramos uma pequena laranjeira. O vaso era liliputiano e a pequena árvore de fruto parecia coisa de bonecas com os seus frutos já maduros.  Mas num canto do quintal, alguém deu conta que o vaso tinha desaparecido. Quem seria que levou o vaso? Após passar palavra, alguém acusou-se.

- Aquelas laranjas pecas? Aquilo não prestavam e eu deitei no lixo, quem é que quereria comer laranjas pecas? – Estava explicado o misterioso desaparecimento da laranjeira anã e das suas minúsculas laranjinhas!

 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

2020 - revisitado

No final de cada ano civil, costumo rever os acontecimentos mais marcantes desses 365 dias. Eis uma pequena lista que a meu ver tiveram mais significado:

  • Janeiro/2020 - O início da grande pandemia
  • 31/1/2020 -  Brexit - Finalmente o Reino Unido deixa a U.E.
  • 7/2/2020 - Kirk Douglas - Com 103 anos falece este grande ator de Hollywood
  • 21/3/2020 - Kenny Rogers - falece cantor country norte americano.
  • 17/4/2020 - Falece em Espanha o escritor chileno Luis Sepúlveda com 73 anos vítima de Covid-19
  • 8/5/2020 - Comemorações dos 75 anos do Dia da Vitória - Fim da IIª. Grande Guerra Mundial
  • 9/5/2020 - Cantor norte americano Little Richard morre com 87 anos
  • 31/5/2020  - Lançamento da primeira nave comercial "Spacex" - Flórida, rumo à Estação Espacial Internacional, com 2 tripulantes a bordo
  • 6/7/2020 - Falece com 91 anos, Enio Morricone, autor de grandes bandas sonoras de dezenas de filmes 
  • 3/8/2020 - Regresso a Terra da capsula "Spacex" com amaragem no Golfo do México
  • 4/8/2020 - Beirute - Forte explosão causada por produtos químicos, provoca mais de 150 vítimas 
  • 6/8/2020 - 75º. Aniversário do lançamento da Bomba Atómica sobre a cidade japonesa de Hiroshima
  • 9/8/2020 -  75º. aniversário do lançamento da Bomba Atómica sobre a cidade de Nagasaki 
  • 23/9/2020 - Com 84 anos, falece em Paris a grande cantora francesa Julliette Greco
  • 10/10/2020 - John Lennon faria 80 anos. O ex-Beatle foi assassinado à porta de casa em Nova York
  • 20/10/2020 - Vinicius de Moraes, poeta, compositor faria hoje 107 anos 
  • 21/10/2020 - Helena Marques, jornalista e escritora falece em Carcavelos com 85 anos
  • 31/10/2020 - Ator Sean Connery falece com 90 anos
  • 5/11/2020 - Joe Biden ganha eleições norte-americanas
  • 25/11/2020 - Maradona, morre em Buenos Aires com 60 anos o ex-futebolista argentino
  • 1/12/2020 - Eduardo Lourenço, deixa-nos com 97 anos. Ensaísta, poeta, escritor, falece em Lisboa
  • 13/12/2020 - Escritor britânico, John Le Carré falece com 87 anos
  • 31/12/2020 - à meia-noite o Reino Unido deixa definitivamente a União Europeia.