segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

PIRATAS E ESPADACHINS

 

 

PIRATAS E ESPADACHINS

 

O jardim tinha os canteiros de basalto negro delineados em diversas formas geométricas. Ao centro, havia um losango de pedrinhas sobrepostas onde as rosas em flor e as coroas de Henrique, de um azul turquesa pontificavam em dezenas de estames coloridos como se fossem foguetes apontados ao céu celeste. Miguel ficava fascinado com a quantidade de plantas despontando de um dia para o outro. A um canto, uma pitangueira apontava já pequeninos pontos verdes ou florinhas brancas, estrelinhas que num futuro breve iriam dar os seus frutos. Bastaria que o calor do Sol aquecesse, e os dias anunciassem a chegada do Verão. Quando as pitangas pintassem iria roubá-las á pequena árvore como costumava fazer habitualmente todos os anos. O cão da casa da vizinha, sempre atento, quando pressentia vozes, ladrava incessantemente tentando chamar a atenção para que lhe atirassem alguma bolacha ou broa ressequida e esquecida nas latas de folha Flandres da velha cozinha. Bobi, dava saltos e piruetas à medida que o chamavam e o seu focinho com uma mancha entre os olhos negra e branca, sobressaiam, ora levantando as patas dianteiras ora rodopiando sobre si mesmo. Da pequena sacada, debruçada para a Rua das Dificuldades ou no quadrado interior do quintal paredes meias com os vizinhos, entre vasos de orquídeas e antúrios, acompanhavam os negros calhaus rolados de basalto no terreiro. Ao fundo, cravado num dos cantos do jardim duma pequena cascata, fiozinhos de água pendiam sem pressa sob inúmeros fetos e avencas, gotas gordas e redondinhas saltavam fazendo “ploc” ao caírem na mancha líquida que cobria a pequena lagoa. Peixinhos vermelhos, assustados, refugiavam-se no lodo tentando abrigar-se nos limos escuros que cobriam o minúsculo lago.

Era no final das tardes que iam crescendo a olhos vistos e que Cecília a pequena empregada da pensão lhe prestava maior atenção, depois de mais um dia atarefado com as inúmeras tarefas a cumprir diariamente. Nessa altura chamava o seu pequeno Miguel para caçar caracóis e lesmas que trepavam às flores roendo pétalas, destruindo as estrelas da manhã e os sapatinhos. Naquela tarde, já quase lusco-fusco ainda D. Maria não tinha chegado a casa, Miguel resolveu ir a uma das gavetas da cozinha tirar uma faca. Depois imitando cenas do filme que tinha presenciado em que um temível herói, cavalgando por densos prados empunhava uma luzidia espada, bramia e lancetava as hastes das coroas de Henrique limpando a eito, degolando as hastes das flores. Contornando os canteiros, via tombar sob a terra e orgulhava-se de uma só vez conseguir acertar e cortá-las sem dó nem piedade. No fundo do quintal, vozes soaram o alerta e a face de Miguel de repente ficou enrubescida quando dá de caras com a D. Maria com cara de poucos amigos, voz agressiva apontando para os cachos de flores inanimadas, onde só os espetos dos caules sobressaiam.

- Vê só o que fizeste? E agora quem vai dar cabo desse rabo sou eu! Foi nesse momento que a criança viu aparecer lá do fundo do quintal a ameaçadora imagem de um cabo de vassoura e deu conta que só lhe restaria escapulir-se a toda a velocidade, esgueirando-se entre canteiros, rodopiando e cirandando quase sem folego, sentindo o anunciado estalar do cabo da vassoura, as primeiras lágrimas de socorro a escorrerem pelo rosto. E ele que tinha gostado tanto daquele filme no Cine Jardim onde piratas e espadachins resolviam duelos entre gritos, ficou sem conseguir perceber o que tinha feito de errado naquela tarde de Verão.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A GIRAFA QUE QUERIA VIVER NAS ESTRELAS - Um conto para miúdos e crianças grandes

 

 

Um conto para crianças e meninos grandes que sonham com as estrelas

 

 E tudo começa com a típica frase de:

Era uma vez! Sim, era uma vez uma pequena girafa bebé que vivia com os seus pais nas savanas quentes de África. Ainda era pequenina e já passava os dias a perguntar aos pais o porquê das coisas.

Porque é de noite? Porque chove? Porque  o Sol é quente? 

Era isto todo o santo dia. Os pais tentavam explicar o que sabiam e inventavam o que não tinha explicação ou não conseguiam entender. Mas dizia eu, a pequena girafa cedo começou a querer coisas impossíveis de se realizar. Queria viajar, correr mundo, encontrar outras girafas de outros bandos, de outras terras distantes, girafas com cores diferentes das dela ou das suas amigas.

Certo dia, começou a olhar para o céu! Como era bonito o céu com as estrelas a cintilar, a Lua avermelhada que mudava de forma, uma vezes era grande e brilhante. Outras,  mais pequena como se fosse uma fatia de bolo. Ficara entusiasmada perante a imensidão de luzinhas a piscar, umas mais brilhantes outras mais apagadas. Umas pareciam mesmo ali perto de si e fáceis de apanhar, enquanto outras mais longínquas e impossíveis de chegar. Então começou a idealizar que o seu pescoço delicado e fino necessitava de crescer muito para chegar até perto de uma delas. Passava o tempo a fazer exercícios de ginástica esticando o pescoço, tentando com todo o esforço possível concretizar o seu sonho. Os amigos de outros bandos de girafas já comentavam que a pequena tinha ganho a alcunha de Esticadinha, tal a mania de querer ter o seu pescoço maior que os seus pais. Havia uns que diziam deveria ir para um ginásio daqueles que fazem muitos exercícios físicos para ter grandes músculos. No caso da girafinha ela só ansiava ter um pescoço tão longo que pudesse passar as nuvens e observar as estrelas. Então lentamente foi crescendo, crescendo até que certa noite de tão entusiasmada estava, viu uma estrela bem próxima de si. Como era bonita! Tão brilhante! Estava tão distraída que se esqueceu de que deveria ter cuidado com os animais ferozes da floresta. Aqueles que provocavam dano e morte aos outros nas noites quentes africanas. Eram caçadores furtivos; leões e leopardos, hienas e tigres prontos a atacar qualquer animal que se encontrasse mais desprevenido.

Esticadinha nem se lembrava mais dos conselhos dos mais velhos, dos seus pais e avós que em manadas pastavam e se abrigavam quando caia a noite refugiando-se entre a densa mata, de grandes árvores espinhosas como as acácias. Eram nesses sítios escuros que se encontravam os elefantes, procurando refúgio dos ataques ferozes dos felinos.

Mas dizia eu, que Esticadinha estava tão distraída que nem deu pela presença de um grupo de hienas mal intencionadas que se agarravam às suas longas patas prontas a morderem e a matá-la. Valeu que os seus pais atentos chamaram pela sua filha girafinha que de imediato correu a abrigar-se dos dentes aguçados das hienas. A mãe girafa repreendia a débil filha ralhando-lhe que andava sempre com a cabeça na Lua ou melhor nas estrelas. Ela do susto não se salvou! No entanto prometeu ter a partir daquele instante mais cuidado.

O mesmo acontece na vida, meninos e meninas devem estar sempre alerta como a pequena girafa em todos os momentos. Devemos sempre prestar atenção aos conselhos dos nossos pais  e nos ensinaram que ao atravessar uma estrada, devemos olhar sempre para os lados para verificar se vem um carro, verificar se  o perigo espreita sem nos iludirmos por tudo o que brilha para não termos surpresas desagradáveis. Sigam o exemplo da pequena Esticadinha e verão que hão de ter sucesso na vida.