segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O CARRO DE CANAS É MELHOR DO QUE O MEU MERCEDES

 


Foto retirada do blogue "O Umbigo"

A criança estava estupefata! à minha frente o menino descalço olhava o meu pequeno Mercedes bourdeax comprado na Casa Maison Blanche, na Rua do Aljube frente à Sé. O pequeno brinquedo da Matchbox, abria as portas, rodava o volante, abria e mostrava o motor. Ele o menino sem nome, pediu-me para lhe mostrar o carrinho. Eu estendi-lhe a mão e ficava a olhar para o carrinho feito de canas e arames que ele fingia conduzir na rua. Como podia um carro de canas andar e virar o volante com tanta perícia? Ficamos os dois embasbacados. E brincamos toda a tarde ali para os lados da igreja de Santo António entre terrenos de bananeiras e tuneis feitos de lama, cheiro de uvas "americanas". Ambos felizes com a experiência. Por fim, pedi dinheiro à minha tia e fui à pastelaria Estrela comprar dois pirolitos. Ofereci-lhe um e ele passou a ser o meu amigo que fazia carrinhos de canas que andava na rua de pedrinhas. O meu Mercedes não!

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

OS HOMENS DA LINHA

 

Esta é uma foto pessoal com familiares meus dos chamados "homens da Linha". Possivelmente dos anos 50' do século passado, mostra os funcionários e dirigentes da Casa da Linha telegráfica da Madeira. Um momento da história madeirense quando as comunicações se faziam por cabo maritimo.

Por favor não piratear, peça autorização para o meu mail: carlos.insulana@gmail.com

Obrigado!  

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

QUANTO VALE UM SORRISO

 Estive e ver um documentário do fim de semana sobre o Japão. Tratava-se de um jornalista americano que no final da Segunda Guerra Mundial, não compreendia como podiam os japoneses sorrir depois de tantos milhares de mortos com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. 

Entretanto, contaram-me uma história dos anos 80' passada  na Madeira. Tal como a jornalista Marta Caires que escreve crónicas para o Diário da Madeira, vou contar esta:


Era Domingo! Havia um rapaz que costumava ficar na hora da missa, junto ao varandim do atrio da igreja para ver chegar a pessoa que tanto gostava. Quando terminava o ato litúrgico, ficava parado a vê-la saír acompanhada da mãe. Ela menina jovem, por vezes olhava-o sem a mínima palavra, mas sorria-lhe, um sorriso envergonhado e belo. Ele ficava observando as crianças que brincavam no átrio, meninas com seus vestidinhos brancos corriam brincando à apanhada, enquanto as mães se reuniam com vizinhos e amigos para contar as últimas novidades e os homens iam beber um copo. O jovem ficava até ao fim, vendo-a subir a ladeira e sonhava. Depois um belo dia, deixou de a ver. Achou estranho e perguntou a vizinhos onde se encontrava a sua amada. Disseram que tinha casado e partido para outras terras. Ele não conseguia compreender e continuou a esperá-la no banco do átrio todos os domingos, sempre que a missa terminava, mas da jovem, nem sinal! Os anos foram passando, e os amigos estranhavam por que ficava ali sozinho? Ele dizia que escutava as crianças a brincar e mais não dizia. Vizinhos diziam que ele estava a ficar louco, que ouvia vozes quando o átrio se encontrava vazio e crianças nem vê-las. Os seus olhos estavam a ficar cansados de tanto esperar. Ficava a sonhar com aquele sorriso absorvido no tempo, sozinho naquele banco. Os amigos já nem metiam conversa, para quê? O homem estava mas era senil. Foram quarenta anos de espera. O banco gasto de tinta verde estava ali só para o ajudar naquelas tardes em que o vento frio da serra, soprava. O sino da igreja imitava o Big-Ben de Londres com os compassados sinos que batiam as horas, as meias e os quartos. Então, um belo dia de Domingo, uma senhora acercou-se de pobre homem imóvel e perguntou-lhe se precisava de ajuda. Ele nem olhou para que lhe dirigia a palavra, mas disse que estava sentado à espera das crianças que brincavam no átrio da igreja no fim da missa. A senhora ajudou-o a levantar do banco. Ele por sua vez achou estranho tanto carinho e olhou-a nos olhos. Foi quando se apercebeu que a senhora tinha o sorriso igual à sua jovem amada. Diz a vizinhança que pela primeira vez o viram sorrir e ficaram admirados com o acontecimento. 

A Marta Caires que me perdoe, mas não foi ela que contou a história. Quem me contou foi um homem que não me lembro do nome, mas que me afiançou ser verdade.