segunda-feira, 31 de agosto de 2020

DO LOMBO DOS AGUIARES PARA O FUNCHAL - GENTE SEM DOMINGOS

Foto de Paulo Camacho


GENTE SEM DOMINGOS

 O dia começa bem cedo! A manhã ainda não acordou por entre o nevoeiro que cobre as montanhas e desce até meia encosta, entre caminhos abruptos, linhas de asfalto que contornam as curvas apertadas rumo à cidade. Teresa levanta-se cedo todos os dias para chegar à Fábrica de Bordados Cruzeiro do Sul, ali paredes meias com o Bazar do Povo. Quando saír da sua humilde casa térrea, já terá arrumado o lar e olhado várias vezes para o relógio sempre com a preocupação de não perder o autocarro. Depois, rumava à cidade. O trabalho era árduo, 8 horas de pé engomando bordados sem fim para serem vendidos a turistas endinheirados. Pelo final da tarde, quase lusco-fusco rumava a casa e, novamente o jantar para fazer, as roupas para cuidar, as duas filhas para educar. De segunda a sexta interminavelmente. Ao sábado saía pelas 13 horas, rumava a minha casa para lavar, limpar, engomar a minha roupa e deixar tudo impecável. Mal tinha tempo para comer, para viver um pouco. Domingo era dia de ir à missa, e de novo lavar, cozinhar e quando por fim parava ao final da tarde, encostava-se a um canto do quintal para remendar alguma peça de roupa ou bordar aquela toalha que poderia trazer algum extra no fim do mês. Anos sem fim, anos de solidão sem um ai, uma comoção, um sinal de carinho nos momentos tristes. 

Soube esta semana que ainda está para ali para a luta da vida e eu com tanto para lhe pagar, tanto para agradecer o seu cuidado, a sua delicadeza. Quando se despediu de mim, ofereceu-me a mais linda toalha bordada com uma qualidade impressionante no "casear", no encher todos os contornos das flores. Depois sempre aquele sorriso com uma beleza inconfundível, o silêncio do olhar a comoção nos seus olhos brilhantes. Que posso eu dizer?

terça-feira, 18 de agosto de 2020

UM PÉ DE BAILE (50 ANOS DEPOIS)

 UM PÉ DE BAILE

 

A famosa história da queda da cadeira em que esteve envolvido o presidente do Conselho Oliveira Salazar, é mais do que conhecida. Algumas das vezes fantasiada com momentos duvidosos fantasiadas pelo povo e passadas ao longo de gerações de “boca em boca” estórias cheias de imaginação e humor em que o caricaturista José Vilhena era mestre no ofício e na pena.  

Mas dizia eu, naquele Verão de 1970 e estando nas minhas cinco quintas de férias grandes na Madeira, havia no ar um não sei quê de diferente, um sussurro à hora do almoço quando todos os manos se sentavam na mesa grande da sala à espera da badalada mágica no sino da Sé. Por vezes, abria-se o pequeno janelo para que se pudesse com toda a precisão de tempo ouvir do “dong” a anunciar as 13 horas. O rádio em cima do aparador estava sintonizado para a ex-Emissora Nacional onde uma voz grave masculina anunciava ao mundo depois de “gong”:

- São 13 horas! Emissora Nacional a transmitir de Lisboa para todo o país. As noticias…

Naquele dia 27 de Julho de 1970, a noticia bombástica era a anunciada morte de Salazar. O burburinho instalou-se naquelas quatro paredes. A minha tia, essa já tinha anunciado entre dentes que se o senhor falecesse daria um Pé de Baile lá em casa. Eu perguntava a mim mesmo o que seria um pé de baile? Seria um baile de saltimbancos? De gira-discos e amigos a dançar rodopiando entre a mesa de refeições? Um pé de baile, mas o que é isso? A minha curiosidade durou anos e todas as vezes que lhe perguntava pelo fenómeno, ela simplesmente dizia-me:

- Estepilha, é que a minha vontade era mesmo dar um pé de baile lá em casa!    

 


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A DIÁSPORA MADEIRENSE OU A SINA DE UM POVO

Desde tenra idade fui apercebendo pela saída de madeirenses para vários destinos do globo que a ilha tinha algo inexplicável. Primeiro, foi o êxodo para a África do Sul; Argentina e Brasil, Curaçao e Venezuela e posteriormente a Austrália. Durante o Século XX, navios partiam da Madeira e com os seus passageiros sonhavam uma vida melhor, sonhos de algum dinheiro para a casa que iria erigir no seu lugarejo natal. Depois vieram os maus momentos do retorno da África anglófona e das ex-colónias. A crise do bolívar deitou por terra negócios e rumos diferentes aos que estavam na Venezuela. A crise petrolífera da década de 70', veio colocar um fim às idas e vindas nos navios da Linea C que aportavam o Funchal, quase quinzenalmente num vai-e-vem de emigrantes em busca do "El Dorado", rumo às Antilhas Holandesas, à Venezuela e todo o longo corredor litoral da América do Sul. A crise  do Bretix e a loucura das ditaduras latinas sem fim à vista foram como pregos em caixões, esperanças defraudadas, famílias irremediavelmente separadas pela distância, pelo dinheiro ou pelo cansaço da idade. Esta parte da história da Madeira ainda estará por contar ou pelo menos, vamos ignorando como é nosso costume. A longa saudade, os dramas familiares de quem enfrenta a separação, esses continuam a fazerem-se notar na vida de um povo sofredor que um dia deixou a sua ilha mágica por não conseguir dar de comer a gerações de filhos. Esses continuavam a sair, acenando lenços brancos molhados nos deck's dos navios e mais tarde no aeroporto sem saberem se um dia regressariam.

Vem isto a propósito de na semana passada, estar a falar com um amigo meu que me contava uma história de paixão nunca antes divulgada com uma jovem emigrada para Caracas e que só passados mais de trinta anos, finalmente a encontrou graças às novas tecnologias da era informática. Ela tinha partido no início dos anos 80' e passado quase uma vida, pôde revê-la de novo. Isto é surreal, mas não único. Assisti a imensos casos de casais separados em que o homem partia deixando mulher e filhos em completa desilusão emocional e económica e nunca mais disseram uma palavra. Se é certo que nos tempos atuais com a facilidade dos telemóveis tudo parece mais acessível, os dramas continuam as separações, as saudades e as lágrimas também! Todos nós temos um pouco dessa saga nas nossas vidas.  

CANTO GALINÁCEO

 





 

CANTO  GALINÁCEO

 

Cata, galinha, cata

Cisca no terreiro, busca comida fácil,

Grão de milho dourado

Enches o papo a cantar, cantar de contentamento. A criança cobiça

O ovo branquinho, a clara e a gema escondida e sonha

Ovinho estrelado quentinho, pão com manteiga

aquele café rico em sabor e cheirinho.

 

Cata galinha, cata

Ensina pintainho a bicar

Canta galo de penas brilhantes

Dono de seu fausto galinheiro

Senhor de muitas galinhas poedeiras

Que a tua hora é pouca

E a canja aconchegante vem lá um dia destes

Na fumegante panela.

 


terça-feira, 4 de agosto de 2020

OS TRÊS MAX'S DA MADEIRA

O poeta brasileiro dedicou em 1973, um poema dedicado aos três Pablos falecidos nesse ano.

Que año más sin criterio,
ese del setenta y tres.
Llevó para el cemeterio,
a tres Pablos de una vez.
Tres Pablotes, no Pablitos
En tiempo, como en espacio,
Pablos de muchos camiños
- Neruda, Casals, Picasso...


Na Madeira existiram três grandes Max's.

Carlos Maximiliano Imperador Austro-Hungaro, o pintor Max Römer que viveu e faleceu no Funchal e o "nosso" Max grande ator madeirense. 

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