segunda-feira, 18 de maio de 2020

A BOTICA INGLESA E O BEBÉ NESTLÉ


Houve tempos em que lá em casa, cada um dos familiares tinham as suas lojas preferidas e eram clientes fieis às mesmas. Não importava se fossem cafés; esplanadas; piscinas; livrarias, mercearias ou farmácias. Na mesma habitação cada um tinha as suas opções mas no que diz respeito às ditas farmácias a escolha pela Botica Inglesa, então acima da média com instalações modernas e brilho profissional dos seus empregados, ficava acima da média. A sua localização num cruzamento entre e Câmara Pestana, Carreira e a Avenida Zarco, bem como estar junto a diversos estabelecimentos como a Estação Central de Correios (à época), a Junta Geral e outros de igual importância, contribuíam para a sua procura.
Seria ainda muito pequeno, quando comecei a prestar atenção aos anúncios, aos reclames luminosos, a dita Botica fazia parte da nossa vida no caso de se necessitar de cuidados de saúde. Eram tempos que se transformavam produtos farmacêuticos, mezinhas, xaropes, etc., pesados em pequenas balanças e embaladas em caixinhas de cartão, frascos ou folhas de papel meticulosamente dobradas quando confecionadas no interior do estabelecimento. Uma das suas funcionárias que durante décadas acompanhou todo o meu crescimento desde a infância até ser adulto, sempre com carinho e simpatia profissional. Quando entrava no estabelecimento, o cheiro a remédios, misto de perfumes e pós de talco, contudo o meu olhar fitava um pequeno busto de um bebé possivelmente em terracota com espessos cabelos encaracolados e um sorriso radiante. Por baixo exibia a palavra Nestlé! Confesso que nunca simpatizei com tal criatura de caracóis fartos a sorrir na minha direção e muito menos com aquele sorriso provocador de quem comia aquela mistela de papas intragáveis e ainda por cima fazia concorrência ao meu cabelo ondulado alvo de constantes tesouradas. Com o passar do tempo, o bebé mantinha-se bem no alto da vitrina central, impune à minha juventude. A senhora de pequenos olhos rasgados, parecia ter algo de oriental, continuava a sorrir-me recordando possivelmente outros tempos, no entanto o busto da criança esse mantinha-se inalterado. A farmácia, essa manteve-se e com ela recordações de entes queridos, dores de barriga e febres comuns, enxaquecas e afins, eu no entanto continuava a evitar olhar o dito boneco.