segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Cá nada!

 Cá nada!

Confesso que à muitos anos que não ouvia esta expressão antigamente muito em voga pelos madeirenses. O seu significado expressa negação e o mais próximo será: - Nada disso!    

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

ELE E ELA

 ELE E ELA

Ele estava sentado numa velha cadeira como sempre fazia ao final da tarde. O terraço estendia-se para além do gradeamento do quintal, onde as serranias verdejantes se abraçavam entre o céu e as nuvens. Em baixo, a baía alongava-se entre o mar e as luzes da cidade que começavam a acender-se. Era aquelo hora mágica em que ele lhe pedia para que o abraçasse e lesse algumas folhas de um livro qualquer. Pedia que lhe lesse Borges, outras vezes "Cem anos de Solidão", outras vezes preferia Sepúlveda e as histórias chilenas que seguiam com Neruda. Ela, fazia-lhe a vontade e aconchegava-se cadeira contra cadeira, como se fossem um só, lendo vagarosamente enquanto ele assimilava as frases gastas, as folhas amarelecidas pelo tempo. Tinha dificuldade em ver as letras, e servia-se da companheira para que lhe sussurra-se ao ouvido sempre as velhas palavras mágicas, aquelas que não lhe podia ler, mas podia dize-lhe baixinho:

- Eu continuo a amar-te!... Esse era o momento mágico em que a tarde deixava os últimos resquícios de claridade e as luzes se acendiam como por magia, as estrelas apareciam no firmamento e os dois se juntavam em mais um dia de felicidade. Ele só lhe pedia que não o levasse para o Lazareto, que não queria morrer num caixote do lixo entre velhos abandonados. Ela fazia juras e pedia-lhe o mesmo, que jamais a abandonasse nem a internasse num qualquer lar da cidade, jogada para um canto, desprezada pela sociedade.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O ADEUS A HELENA MARQUES

 

Passou quase despercebida a notícia do dia 21 deste mês, do falecimento da escritora "madeirense" Helena Marques. Autora de vários livros dedicados à sua ilha de eleição, a Madeira, a escritora tem um vasto curriculum ligados à imprensa escrita. Conhecia-a um dia na rua quando tinha acabado de publicar o seu último romance "O Bazar Alemão". A Assembleia Regional da Madeira manifestou um voto de pesar pelo seu desaparecimento.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

É FAVOR NÃO COLHER AS FLORES

 

Stella Matutina

Eu teria 4 ou 5 anos, acocorado junto ao vaso que se encontrava à minha frente, estava uma planta mágica única no imenso quintal, rodeado por plantas e árvores de fruto, cascatas onde escorriam fiozinhos de água, e as rochas decoravam pequenos lagos completamente cobertos de musgos, fetos de longos braços verdes que pendiam nos recantos mal iluminados pelo Sol.

Cecília, chamava-me ainda mal a luz da manhã iluminava o céu para ver o fenómeno. A pequena planta que durante a madrugada abria suas pétalas, agora com os primeiros raios de Sol, fechava-se sob si. Eu achava que era magia.

 É favor não colher flores

Seria tarde! No Parque de Santa Catarina, crianças humildes colhiam flores dos canteiros sem que os guardas se apercebessem. Provavelmente iriam oferecê-las a turistas em troca de alguma moeda onde pudessem gastar em comida ou alguma guloseima. Então virei-me para a minha tia e disse:

- Vou ali apanhar uma flor! De imediato chamou-me a atenção que as flores não eram para ser colhidas. Mas eu insistia que outros meninos tinham cortado algumas dos canteiros. Então explicou-me que se todas as pessoas colhessem as flores dos jardins, não haveriam jardins nem flores e o mundo seria menos belo.

Entre o mar e rochas vulcânicas no meio do Atlântico, entre a espuma branca da noite se fez dia, do Sol brilhou felicidade, das nuvens gotinhas caíram no meu rosto e sorri, daqueles sorrisos que só as crianças sabem iluminar o mundo. Eu continuava a plantar flores no meu jardim de sonhos até ao dia de hoje.

 

PS- Como curiosidade em 1980, ofereci a um casal amigo holandês alguns bolbos de orquídeas. Nesse mesmo ano, recebi uma carta registada de Amsterdão dizendo que uma das orquídeas tinha sido premiada. Em agradecimento, o casal fez um cruzeiro à Madeira a bordo do navio Black Watch em agradecimento.

 

Por documento escrito, decidi que em caso de morte o meu caixão não terá flores. Continuo a lembrar-me da lição da minha tia que achava pouco digno apanhar as flores. Se todos nós colhermos as flores, não restarão jardins, nem cores e cheiros, nem lágrimas, nem lamentações ou sorrisos.


DE IMAGENS E DE MEMÓRIAS

 

Genesis 1 

- No princípio criou Deus o céu e a terra.

 


 

Minha mãe dizia-me que numa das suas viagens entre Portugal e o Rio de Janeiro, ao passar pela Madeira, se apaixonou. Após vários anos a viver no Brasil, um dia voltou e casou. Depois Deus quis que eu nascesse. Então, ela subiu Santa Luzia e eu nasci no Hospital dos Marmeleiros. Seria Janeiro, quando os dias são mais frios e o nevoeiro cobre as verdes montanhas. Então, de novo Deus ordenou que eu vivesse e amasse a natureza e todos os seres vivos da Terra. Assim se fez!

E eu cresci! 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O CARRO DE CANAS É MELHOR DO QUE O MEU MERCEDES

 


Foto retirada do blogue "O Umbigo"

A criança estava estupefata! à minha frente o menino descalço olhava o meu pequeno Mercedes bourdeax comprado na Casa Maison Blanche, na Rua do Aljube frente à Sé. O pequeno brinquedo da Matchbox, abria as portas, rodava o volante, abria e mostrava o motor. Ele o menino sem nome, pediu-me para lhe mostrar o carrinho. Eu estendi-lhe a mão e ficava a olhar para o carrinho feito de canas e arames que ele fingia conduzir na rua. Como podia um carro de canas andar e virar o volante com tanta perícia? Ficamos os dois embasbacados. E brincamos toda a tarde ali para os lados da igreja de Santo António entre terrenos de bananeiras e tuneis feitos de lama, cheiro de uvas "americanas". Ambos felizes com a experiência. Por fim, pedi dinheiro à minha tia e fui à pastelaria Estrela comprar dois pirolitos. Ofereci-lhe um e ele passou a ser o meu amigo que fazia carrinhos de canas que andava na rua de pedrinhas. O meu Mercedes não!

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

OS HOMENS DA LINHA

 

Esta é uma foto pessoal com familiares meus dos chamados "homens da Linha". Possivelmente dos anos 50' do século passado, mostra os funcionários e dirigentes da Casa da Linha telegráfica da Madeira. Um momento da história madeirense quando as comunicações se faziam por cabo maritimo.

Por favor não piratear, peça autorização para o meu mail: carlos.insulana@gmail.com

Obrigado!  

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

QUANTO VALE UM SORRISO

 Estive e ver um documentário do fim de semana sobre o Japão. Tratava-se de um jornalista americano que no final da Segunda Guerra Mundial, não compreendia como podiam os japoneses sorrir depois de tantos milhares de mortos com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. 

Entretanto, contaram-me uma história dos anos 80' passada  na Madeira. Tal como a jornalista Marta Caires que escreve crónicas para o Diário da Madeira, vou contar esta:


Era Domingo! Havia um rapaz que costumava ficar na hora da missa, junto ao varandim do atrio da igreja para ver chegar a pessoa que tanto gostava. Quando terminava o ato litúrgico, ficava parado a vê-la saír acompanhada da mãe. Ela menina jovem, por vezes olhava-o sem a mínima palavra, mas sorria-lhe, um sorriso envergonhado e belo. Ele ficava observando as crianças que brincavam no átrio, meninas com seus vestidinhos brancos corriam brincando à apanhada, enquanto as mães se reuniam com vizinhos e amigos para contar as últimas novidades e os homens iam beber um copo. O jovem ficava até ao fim, vendo-a subir a ladeira e sonhava. Depois um belo dia, deixou de a ver. Achou estranho e perguntou a vizinhos onde se encontrava a sua amada. Disseram que tinha casado e partido para outras terras. Ele não conseguia compreender e continuou a esperá-la no banco do átrio todos os domingos, sempre que a missa terminava, mas da jovem, nem sinal! Os anos foram passando, e os amigos estranhavam por que ficava ali sozinho? Ele dizia que escutava as crianças a brincar e mais não dizia. Vizinhos diziam que ele estava a ficar louco, que ouvia vozes quando o átrio se encontrava vazio e crianças nem vê-las. Os seus olhos estavam a ficar cansados de tanto esperar. Ficava a sonhar com aquele sorriso absorvido no tempo, sozinho naquele banco. Os amigos já nem metiam conversa, para quê? O homem estava mas era senil. Foram quarenta anos de espera. O banco gasto de tinta verde estava ali só para o ajudar naquelas tardes em que o vento frio da serra, soprava. O sino da igreja imitava o Big-Ben de Londres com os compassados sinos que batiam as horas, as meias e os quartos. Então, um belo dia de Domingo, uma senhora acercou-se de pobre homem imóvel e perguntou-lhe se precisava de ajuda. Ele nem olhou para que lhe dirigia a palavra, mas disse que estava sentado à espera das crianças que brincavam no átrio da igreja no fim da missa. A senhora ajudou-o a levantar do banco. Ele por sua vez achou estranho tanto carinho e olhou-a nos olhos. Foi quando se apercebeu que a senhora tinha o sorriso igual à sua jovem amada. Diz a vizinhança que pela primeira vez o viram sorrir e ficaram admirados com o acontecimento. 

A Marta Caires que me perdoe, mas não foi ela que contou a história. Quem me contou foi um homem que não me lembro do nome, mas que me afiançou ser verdade.   

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

DO LOMBO DOS AGUIARES PARA O FUNCHAL - GENTE SEM DOMINGOS

Foto de Paulo Camacho


GENTE SEM DOMINGOS

 O dia começa bem cedo! A manhã ainda não acordou por entre o nevoeiro que cobre as montanhas e desce até meia encosta, entre caminhos abruptos, linhas de asfalto que contornam as curvas apertadas rumo à cidade. Teresa levanta-se cedo todos os dias para chegar à Fábrica de Bordados Cruzeiro do Sul, ali paredes meias com o Bazar do Povo. Quando saír da sua humilde casa térrea, já terá arrumado o lar e olhado várias vezes para o relógio sempre com a preocupação de não perder o autocarro. Depois, rumava à cidade. O trabalho era árduo, 8 horas de pé engomando bordados sem fim para serem vendidos a turistas endinheirados. Pelo final da tarde, quase lusco-fusco rumava a casa e, novamente o jantar para fazer, as roupas para cuidar, as duas filhas para educar. De segunda a sexta interminavelmente. Ao sábado saía pelas 13 horas, rumava a minha casa para lavar, limpar, engomar a minha roupa e deixar tudo impecável. Mal tinha tempo para comer, para viver um pouco. Domingo era dia de ir à missa, e de novo lavar, cozinhar e quando por fim parava ao final da tarde, encostava-se a um canto do quintal para remendar alguma peça de roupa ou bordar aquela toalha que poderia trazer algum extra no fim do mês. Anos sem fim, anos de solidão sem um ai, uma comoção, um sinal de carinho nos momentos tristes. 

Soube esta semana que ainda está para ali para a luta da vida e eu com tanto para lhe pagar, tanto para agradecer o seu cuidado, a sua delicadeza. Quando se despediu de mim, ofereceu-me a mais linda toalha bordada com uma qualidade impressionante no "casear", no encher todos os contornos das flores. Depois sempre aquele sorriso com uma beleza inconfundível, o silêncio do olhar a comoção nos seus olhos brilhantes. Que posso eu dizer?

terça-feira, 18 de agosto de 2020

UM PÉ DE BAILE (50 ANOS DEPOIS)

 UM PÉ DE BAILE

 

A famosa história da queda da cadeira em que esteve envolvido o presidente do Conselho Oliveira Salazar, é mais do que conhecida. Algumas das vezes fantasiada com momentos duvidosos fantasiadas pelo povo e passadas ao longo de gerações de “boca em boca” estórias cheias de imaginação e humor em que o caricaturista José Vilhena era mestre no ofício e na pena.  

Mas dizia eu, naquele Verão de 1970 e estando nas minhas cinco quintas de férias grandes na Madeira, havia no ar um não sei quê de diferente, um sussurro à hora do almoço quando todos os manos se sentavam na mesa grande da sala à espera da badalada mágica no sino da Sé. Por vezes, abria-se o pequeno janelo para que se pudesse com toda a precisão de tempo ouvir do “dong” a anunciar as 13 horas. O rádio em cima do aparador estava sintonizado para a ex-Emissora Nacional onde uma voz grave masculina anunciava ao mundo depois de “gong”:

- São 13 horas! Emissora Nacional a transmitir de Lisboa para todo o país. As noticias…

Naquele dia 27 de Julho de 1970, a noticia bombástica era a anunciada morte de Salazar. O burburinho instalou-se naquelas quatro paredes. A minha tia, essa já tinha anunciado entre dentes que se o senhor falecesse daria um Pé de Baile lá em casa. Eu perguntava a mim mesmo o que seria um pé de baile? Seria um baile de saltimbancos? De gira-discos e amigos a dançar rodopiando entre a mesa de refeições? Um pé de baile, mas o que é isso? A minha curiosidade durou anos e todas as vezes que lhe perguntava pelo fenómeno, ela simplesmente dizia-me:

- Estepilha, é que a minha vontade era mesmo dar um pé de baile lá em casa!    

 


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A DIÁSPORA MADEIRENSE OU A SINA DE UM POVO

Desde tenra idade fui apercebendo pela saída de madeirenses para vários destinos do globo que a ilha tinha algo inexplicável. Primeiro, foi o êxodo para a África do Sul; Argentina e Brasil, Curaçao e Venezuela e posteriormente a Austrália. Durante o Século XX, navios partiam da Madeira e com os seus passageiros sonhavam uma vida melhor, sonhos de algum dinheiro para a casa que iria erigir no seu lugarejo natal. Depois vieram os maus momentos do retorno da África anglófona e das ex-colónias. A crise do bolívar deitou por terra negócios e rumos diferentes aos que estavam na Venezuela. A crise petrolífera da década de 70', veio colocar um fim às idas e vindas nos navios da Linea C que aportavam o Funchal, quase quinzenalmente num vai-e-vem de emigrantes em busca do "El Dorado", rumo às Antilhas Holandesas, à Venezuela e todo o longo corredor litoral da América do Sul. A crise  do Bretix e a loucura das ditaduras latinas sem fim à vista foram como pregos em caixões, esperanças defraudadas, famílias irremediavelmente separadas pela distância, pelo dinheiro ou pelo cansaço da idade. Esta parte da história da Madeira ainda estará por contar ou pelo menos, vamos ignorando como é nosso costume. A longa saudade, os dramas familiares de quem enfrenta a separação, esses continuam a fazerem-se notar na vida de um povo sofredor que um dia deixou a sua ilha mágica por não conseguir dar de comer a gerações de filhos. Esses continuavam a sair, acenando lenços brancos molhados nos deck's dos navios e mais tarde no aeroporto sem saberem se um dia regressariam.

Vem isto a propósito de na semana passada, estar a falar com um amigo meu que me contava uma história de paixão nunca antes divulgada com uma jovem emigrada para Caracas e que só passados mais de trinta anos, finalmente a encontrou graças às novas tecnologias da era informática. Ela tinha partido no início dos anos 80' e passado quase uma vida, pôde revê-la de novo. Isto é surreal, mas não único. Assisti a imensos casos de casais separados em que o homem partia deixando mulher e filhos em completa desilusão emocional e económica e nunca mais disseram uma palavra. Se é certo que nos tempos atuais com a facilidade dos telemóveis tudo parece mais acessível, os dramas continuam as separações, as saudades e as lágrimas também! Todos nós temos um pouco dessa saga nas nossas vidas.  

CANTO GALINÁCEO

 





 

CANTO  GALINÁCEO

 

Cata, galinha, cata

Cisca no terreiro, busca comida fácil,

Grão de milho dourado

Enches o papo a cantar, cantar de contentamento. A criança cobiça

O ovo branquinho, a clara e a gema escondida e sonha

Ovinho estrelado quentinho, pão com manteiga

aquele café rico em sabor e cheirinho.

 

Cata galinha, cata

Ensina pintainho a bicar

Canta galo de penas brilhantes

Dono de seu fausto galinheiro

Senhor de muitas galinhas poedeiras

Que a tua hora é pouca

E a canja aconchegante vem lá um dia destes

Na fumegante panela.

 


terça-feira, 4 de agosto de 2020

OS TRÊS MAX'S DA MADEIRA

O poeta brasileiro dedicou em 1973, um poema dedicado aos três Pablos falecidos nesse ano.

Que año más sin criterio,
ese del setenta y tres.
Llevó para el cemeterio,
a tres Pablos de una vez.
Tres Pablotes, no Pablitos
En tiempo, como en espacio,
Pablos de muchos camiños
- Neruda, Casals, Picasso...


Na Madeira existiram três grandes Max's.

Carlos Maximiliano Imperador Austro-Hungaro, o pintor Max Römer que viveu e faleceu no Funchal e o "nosso" Max grande ator madeirense. 

..

 


segunda-feira, 18 de maio de 2020

A BOTICA INGLESA E O BEBÉ NESTLÉ


Houve tempos em que lá em casa, cada um dos familiares tinham as suas lojas preferidas e eram clientes fieis às mesmas. Não importava se fossem cafés; esplanadas; piscinas; livrarias, mercearias ou farmácias. Na mesma habitação cada um tinha as suas opções mas no que diz respeito às ditas farmácias a escolha pela Botica Inglesa, então acima da média com instalações modernas e brilho profissional dos seus empregados, ficava acima da média. A sua localização num cruzamento entre e Câmara Pestana, Carreira e a Avenida Zarco, bem como estar junto a diversos estabelecimentos como a Estação Central de Correios (à época), a Junta Geral e outros de igual importância, contribuíam para a sua procura.
Seria ainda muito pequeno, quando comecei a prestar atenção aos anúncios, aos reclames luminosos, a dita Botica fazia parte da nossa vida no caso de se necessitar de cuidados de saúde. Eram tempos que se transformavam produtos farmacêuticos, mezinhas, xaropes, etc., pesados em pequenas balanças e embaladas em caixinhas de cartão, frascos ou folhas de papel meticulosamente dobradas quando confecionadas no interior do estabelecimento. Uma das suas funcionárias que durante décadas acompanhou todo o meu crescimento desde a infância até ser adulto, sempre com carinho e simpatia profissional. Quando entrava no estabelecimento, o cheiro a remédios, misto de perfumes e pós de talco, contudo o meu olhar fitava um pequeno busto de um bebé possivelmente em terracota com espessos cabelos encaracolados e um sorriso radiante. Por baixo exibia a palavra Nestlé! Confesso que nunca simpatizei com tal criatura de caracóis fartos a sorrir na minha direção e muito menos com aquele sorriso provocador de quem comia aquela mistela de papas intragáveis e ainda por cima fazia concorrência ao meu cabelo ondulado alvo de constantes tesouradas. Com o passar do tempo, o bebé mantinha-se bem no alto da vitrina central, impune à minha juventude. A senhora de pequenos olhos rasgados, parecia ter algo de oriental, continuava a sorrir-me recordando possivelmente outros tempos, no entanto o busto da criança esse mantinha-se inalterado. A farmácia, essa manteve-se e com ela recordações de entes queridos, dores de barriga e febres comuns, enxaquecas e afins, eu no entanto continuava a evitar olhar o dito boneco.    

segunda-feira, 20 de abril de 2020

EMBALO


Embalo
 (Dedicado à minha mãe)



Noite quente. No parapeito da janela
Asfixias-me junto ao peito. Não consigo dormir!
Noite abafada. Na casa ao lado, o choro contínuo de um bebé absorve o silêncio.
- Por que chora a Filipa? Exclamo.
Minha mãe responde-me: - Talvez dores de dentes, talvez! Talvez cólicas, talvez…
Olho as estrelas no céu imenso. No caminho mal iluminado, grilos cantam anunciando mais calor amanhã, talvez…
Aconchegado ali fico. Imóvel. Cantas-me baixinho “O peixinho do mar” Semicerro os olhos, só ouço o bebé continuamente em desespero chorar.
Adormeço embalado pelo “peixinho/quem te ensinou a nadar/quem foi/
quem foi/quem te ensinou a nadar/foi o peixinho do mar”!
Talvez, talvez o embalo do teu ninar!




quinta-feira, 26 de março de 2020

SÃO CRISTÓVÃO E O PESO DA PANDEMIA




São Cristóvão e o peso da pandemia


Durante a minha infância sempre tive uma especial curiosidade por duas imagens religiosas. Tratavam-se de Santa Catarina de Alexandria e de São Cristóvão. Da primeira, já expliquei o motivo em anterior postagem. Quanto ao segundo caso, o principal motivo que muito me intrigava ao ver estampas do Santo, era devido aos adultos contarem-me a vezes sem conta, a travessia de um rio com um menino sentado no seu ombro. Segundo reza a lenda, à medida que atravessavam as turbulentas águas, o menino ia tornando-se cada vez mais pesado fazendo com que São Cristóvão quase se afogasse. A minha imaginação fazia o resto! Ao ver a imagem, as perguntas disparavam querendo saber o final e por que motivo o santo não desconfiava que a criança em causa seria jesus? E como não se tinha afogado? E como pode um santo carregar todo o peso do mundo ao ombro?....
Ao fazer uma comparação com os tempos agitados em que vivemos, em que a net proporciona conhecimento como nunca, em que todos têm direito a dizer o que vai na real gana, em que os profetas da desgraça maldizentes, parvoíces e comparações com factos históricos pouco abonatórios, feiticeiros de adivinhações e outros que tal. Enumeram-se nas redes, Bandarra e as suas profecias, Nostradamus,  um chorrilho de livros em que estarão descritos que tudo isto estaria já previsto, só que ninguém tomou as devidas precauções… Para essas pessoas tão sábias e que levaram tão a peito as ditas profecias de São Cipriano, Zandingas do presente, prefiro escolher o Calimero e a sua frase mais utilizada “Isto é uma injustiça! Perdoem-me a comparação, mas por vezes tenho destes devaneios e falta de paciência.
Quanto à imagem do São Cristóvão, padroeiro dos viajantes e motoristas, quando era criança existiam todo o tipo de objetos que as pessoas colocavam na carteira ou no carro pedindo proteção divina em caso de acidente. O telejornal de ontem, mostra o presidente do México com uma imagem não identificável afirmando que a mesma o protegerá dos males da pandemia do coronavírus ao trazê-la sempre no bolso da sua camisa. Outros como Bolsonaro afirma que o vírus nele não entra! O seu principal mentor Trump,  acusa todos os males do mundo aos jornalistas maldizentes. O seu primo “despenteado” Boris Johnson afirma que está tudo sob controlo e que não precisam de se preocupar com ninharias. Confesso que pelo sim pelo não, prefiro usar no bolso o meu São Cristóvão protetor das minhas viagens ao supermercado para comprar pão. É que não me sai da cabeça como pode um pobre homem carregar ao ombro todos os males do mundo?

segunda-feira, 23 de março de 2020

PATRONATO DE NOSSA SENHORA DAS DORES

Eis uma belíssima fotografia. Gosto de "estudar" todos os detalhes fisionómicos das crianças aqui reveladas, do seu olhar de espanto perante o fotógrafo, o momento do clic, um sorriso maroto, um olhar mais triste, enfim vale a pena colocar-mo-nos no lugar das próprias crianças, na época e no motivo que levou à união da ocasião.
Segundo consta, um casal "possivelmente madeirense" decidiu oferecer a estas crianças um uniforme da Congregação de S. Filipe. O casal Ávila doou o tecido e após ser costurado conforme a idade das ditas crianças desfavorecidas, tiraram o retrato para a posteridade. A instituição ainda existe e não sei se terá mais a acrescentar, mas teria muito gosto em saber o resto da história desse feliz dia.       

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

QUINTA DO VALE FORMOSO

A Quinta do Vale Formoso, foi edificada por Mr. Grabham, cidadão britânico e grande industrial na Ilha da Madeira. Da fachada original, pouco resta. As diversas transformações ao longo dos tempos, e a aquisição pelo Governo Regional após o 25 de Abril, a sua conversão em Lar de Idosos e as suas últimas obras já nos anos 90' do século passado, fizeram dos seus jardins e relvados com árvores centenárias, em especial cedros de grandes dimensões e dragoeiros, foram alterando ao longo dos tempos.
A imagem foi pintada por Max Römer e data do ano de 1050.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

AZÁLEAS DE ESPERANÇA



AZÁLEAS DE ESPERANÇA

Era ainda bastante jovem quando iniciou a sua atividade profissional numa empresa do ramo automóvel. A certa altura, notou que tinha dificuldade em controlar as peças mais pequenas e após consulta médica e respetivos exames, foi diagnosticado uma doença incurável que lhe afetaria gradualmente os seus membros e lhe causaria a sua paralisação. Acabou por ter de deixar o trabalho e refugiou-se em casa na solidão do seu quarto à medida que os sintomas de atrofia muscular lhe causavam sofrimento e o deixava impossibilitado de conseguir caminhar e completamente dependente da sua cadeira de rodas. Da janela no seu quarto, passava horas a olhar o horizonte como se o mundo terminasse até ao alcance da sua visão.
Certo dia, apercebeu-se de uma pequena flor num vaso do seu minúsculo quintal. Teve curiosidade de observá-la com maior rigor e pediu à sua esposa que o levasse até ao jardim. Alí pôde ver com maior nitidez aquela flor que tinha nascido, uma azálea!  Então, foi procurar informação sobre tudo o que dizia respeito à dita planta. Pesquisou a internet, pediu livros na biblioteca da sua vila e um dia, resolveu que iria fazer do seu pequeno espaço ao ar livre uma plantação de azáleas. E assim foi! A plantação foi crescendo em pequenos vasos. Aparava, podava, regava e foi tanto o seu carinho que decidiu expandir os seus conhecimentos a outros vizinhos. Certo dia, resolveu fazer uma formação sobre azáleas. Curiosamente, apareceram muitos conhecidos, pessoas isoladas que também vieram saber mais sobre como uma pequena flor tinha transformado um homem doente. E o sucesso foi aumentando até ao ponto de uma estação de televisão ter feito uma reportagem sobre o acontecimento. As suas azáleas de futuro não seriam só o seu mundo. As mensagens de alento, começaram a surgir. Outras pessoas com problemas de saúde graves escreviam-lhe incentivando a continuar o seu belo e colorido mundo. Um dia recebeu uma carta de uma jovem com uma doença terminal e que lhe pedia um vaso de azáleas para cuidar até ao resto do seu tempo de vida. Surgiu então, a hipótese de começar a enviar vasos de azáleas para todos os que quisessem também ter uma pequena planta como companhia e de uma pequena semente, muita esperança nasceu em muitos doentes e pessoas solitárias que ao cuidarem das suas famosas azáleas davam esperança a outros seres humanos.

(Uma pequena história baseada em factos reais)