segunda-feira, 11 de março de 2019

UNE VALSE A QUATRE MAINS



UNE VALSE A QUATRE MAINS

Lá por alturas dos anos 40’ do passado século, contavam-me familiares mais velhos existir uma verdadeira competição musical entre duas famílias madeirenses. Era uma época em que as meninas talentosas aprendiam a tocar piano e a falar francês. As meninas frequentavam então o Colégio da Apresentação de Maria enquanto os rapazes tinham aulas no Externato Lisbonense. Mas dizia eu, estaria na mente dos Sousa e dos Pinto da Silva que as suas pupilas fossem assíduas alunas do Colégio da Apresentação tivessem entre aulas de lavores, as decanto coral. Piano só com alguma professora particular que pela cidade do Funchal se encontrasse à época. Segundo se constava, tinham dotes artísticos dignos de autênticos saraus musicais que lá para os lados do alto da Cabouqueira, onde a Calçada se torna mais íngreme e as casas parecem tocarem-se, viviam.
Eu já assisti nos finais dos anos 60’ a alguns desses encontros de cantos e piano, disputas entre duas casas, duas famílias, duas primas e dois pianos como convinha. Eram geralmente aos fins de semana quando a temperatura era mais confortável e os dias solarengos que ao final da tarde, as salas de uma e de outra habitação se engalanavam com os lustres de cristal reluzentes, amigos e parentes próximos se acomodavam nos longos sofás e canapés com naperons e colchinhas de renda ou crochet se cruzavam com almofadas de suma a uma aconchegantes. Abriam-se as verdes venezianas de madeira, e as primas iniciavam o espectáculo. De um lado, a Ana de Sousa. Do outro, Guiomar Pinto sentavam-se em pequenos bancos para escolherem o repertório entre montanhas de pautas musicais. Se de uma sala se atacava com uma polka, do outro a resposta vinha em cançonetas ligeiras ou um excerto de um compositor clássico. Seguiam-se “Für Elise”, “Torna a Surriento” enquanto “Santa Lucia” ou “O Sole Mio” eram efusivamente cantados em duetos, martelados nos pianos até à exaustão. A criançada tentava soletrar num “deslavado” italiano de indecifrável sotaque. A prima Pinto carregava no refrão “O Sole Mio”, enquanto eu virava as folhas das pautas onde estavam desenhadas as notas redondinhas sempre acompanhadas com claves de sol e tracinhos e mais tracinhos que eu não conseguia acompanhar ao dividir as sílabas escritas a negro. Ficava embasbacado como tudo aquilo se transformava em música e podia ser lido como uma página de um livro.
Na sala dos Sousa, tocava-se “La vie en rose”, enquanto Guiomar saltava para Maria Lurdes Resende entoando aos   quatro cantos do salão “Quem passa por Alcobaça/Não passa sem lá voltar!...”. Eu não sabia o que era Alcobaça, ficava a ver os outros cantar. Mas a letra ficava no meu ouvido e por vezes cantarolava e inventava à minha maneira “Quem passa por Alcobaça/Nunca mais lá quer voltar…” era o que me saía da imaginação.
Por vezes os sons silenciavam-se! Os adultos aproveitavam para pedir esta ou aquela modinha preferida. Por vezes chegava perto do piano e tentava dedilhar sons entre teclas negras e alvas como marfim. Suplicava “Música no coração” ou aquela música de um filme que tinha visto no cinema onde uma senhora de guarda-chuva voando sobre os telhados de Londres cantava “Super-cali-fragil-isti-cation… (indecifrável). Os mais novos, batiam palmas falham o tempo e desafinando, mas o que interessava era a prima tocar e cantar como a Julie Andrews “Super-cali-fragil….”
Eram serões animados onde um bom jantar era ouro sobre azul. E nós já estávamos cheios de sandes de carnes frias e sumo de maracujá. Sabíamos que o teclado emudecia aos acordes das primeiras cinco notas do “Danúbio azul”. Do outro lado da calçada, o outro piano ripostava desafiando com as restantes notas da valsa de Strauss. Era o fim da tertúlia, entre palmas e bravos se sucediam, e as primas faziam vénias sem fim, agradecidas entre risos e brincadeiras. No corredor, alguém anunciava que o jantar estava na mesa! Apagavam-se as luzes e os cristais pendentes nos altos tectos deixavam de brilhar até a próxima oportunidade.
Mas foi nos finais da década de 60’ que tudo acabou! Os pais foram partindo para sempre, os pianos ficaram mudos e com pó, as mãos das primas trémulas e sem vontade de cantar ou tocar. As pautas cheias de notas redondinhas, de claves de Sol e tracinhos que dividiam as palavras ficaram guardadas em gavetas das comodas, as venezianas deixaram de ser abertas de par em par como envergonhadas pelos sons musicais que jamais tocariam valsas e canções napolitanas. “O Sole Mio” já não brilhava nem o “Super-cali-fragil-isti…  subia aos telhados de Londres. As primas faleceram, os pianos foram parar a uma casa de leilões ali para os lados da Mouraria. Foi o fim de uma época dourada que entre o velho casario da Calçada da Cabouqueira, um catavento com um galo no topo anunciava outros ventos no horizonte. 


CAM