quarta-feira, 31 de outubro de 2018

BOM DIA, SENHOR INFANTE

Infante 1.JPG
Foto retirada do blog - roinesxxi.blogs.sapo.pt

Nos anos 60' do século passado, três crianças tinham o curioso costume de quando iam passear e ao passar na Rotunda do Infante no Funchal, tirarem os seus chapéus, com uma vénia e em uníssono diziam em voz alta:
- Bom dia Senhor Infante!...
Os turistas ficavam estupefactos com todo aquele aparato, tiravam fotografias.
   
Bom Dia Senhor Infante

A avó vai até ao parque da cidade, acompanhando os netos. Vamos embora! Cuidado com os carros, sempre no passeio. Não atravessem sem eu chegar à passadeira… à entrada do jardim, um imensa estátua pedestre de bronze do Infante D. Henrique. Os três irmãos param à sua frente sempre que visitam o local. Sabem que do protocolo faz parte cumprimentarem efusivamente e em uníssono! Tiram os seus chapéus de ganga azul.
- Bom dia Senhor Infante!
Olham a figura imóvel num verde gasto pelo tempo. O velho Infante, sentado, contempla o oceano. Depois fazem a continência como já viram marinheiros fazerem em homenagens pela cidade.
- Avó, quem é aquele senhor?
- Então meninos não sabem, quem é o Senhor Infante? Com certeza já ouviram histórias dum terrível Adamastor e da Nau Catrineta. 
E explicava de novo, a avó que D. Henrique tinha criado uma escola náutica em Sagres. Graças a ele, Portugal tinha descoberto novas terras pelo Mundo, chegado ao Brasil, explorado o continente africano e desembarcado na longínqua Ásia. Os seus meninos já tinham ouvido falar destes nomes na telefonia ou em conversas com os mais velhos. Por vezes, tinham curiosidade em ver o velho Atlas colorido cheio de mapas e bandeiras de outras terras que a avó lhes mostrava.
- Vejam meninos, como o Mundo tem uma forma de uma bola redondinha? Os seus netos ficavam surpresos… Vejam tantas bandeiras…Onde Está a nossa? Ali, ali diziam todos a uma só vez!
As crianças iam crescendo a olhos vistos, aprendendo que de pequenas coisas surgiam novas descobertas e dos conhecimentos do dia-a-dia, iam surgindo sempre outros segredos. Ricardo, como era o mais velho, já iria para a primeira classe em Outubro quando a escola reabrisse. Ansiava por esse momento de descobrir em folhas de livros coloridos estavam tesouros escondidos. Queria aprender a escrever o seu nome, fazer desenhos, ler os livros de histórias que os adultos lhes liam junto à cama na hora de dormir. Queria ter a felicidade de ler o mundo nas páginas dos jornais, quantos sonhos, quantas descobertas. Graças à sua futura professora, teria o condão de transformar letras em frases, ideias, desejos e sonhos ao longo da vida. Como o Senhor Infante, também ele daria asas à imaginação e descobriria novos mundos.

Muitos anos depois, com a memória já gasta pelo tempo, recordando a sua infância, no mesmo local onde costumava passar junto à estátua, revivi de novo a época em que três crianças tirando os pequenos chapéus, faziam continência e davam em uníssono dos Bons dias Senhor Infante! Da última vez que por lá passei, olhei-o fixamente. Pareceu-me vê-lo ligeiramente sorrir ou seria a névoa incessante nos meus olhos em sinal de agradecimento.