quinta-feira, 14 de junho de 2018

ENGLISCHE GARTEN - MUNIQUE

A manhã anunciava-se luminosa, quente e convidativa à caminhada. Tinha combinado encontrar-me com Else, no Englische Garten em Munique. Passaram trinta anos desde a última vez que a tinha visto e todo esse tempo incomodava-me deveras. O tempo é avassalador e inimigo da verdade!
Tínhamos convivido durante vários anos, encontros de Inverno e Outonos, reservados entre férias quinzenais marcadas com precisão alemã. Depois, os finais de tarde no topo dos Apartamentos Casa Branca, entre a Ajuda e o Gorgulho, e o infinito do mar, eram consumidos entre cervejas alemãs e "kartoffel frittata" até ao anoitecer. Agora, sentia-me na disposição de retribuir esses magníficos por do Sol, degustados entre petiscos alemães e portugueses acompanhados de Beck's e Franziskaner's geladas.
Caminhava entre caminhos de relva de um verde envernizado pelo brilho da manhã onde o aroma da fotossíntese e o azul celestial convidava à preguiça, ao "dolce far niente". Preferia simplesmente caminhar sem pressa, procurando tirar partido da manhã radiosa na capital bávara. Se era certo que trinta anos era muito tempo sem ver a velha amiga alemã, a curiosidade em reconhecer a sua fisionomia e a doce saudade própria de quem chega à velhice e procura o segredo e a doçura do seu passado. No topo de uma colina, fui confrontado entre o acenar e o som gutural característico da Baviera e Alpes. Ao encontro da sua face, os penetrantes azuis dos seus olhos e o escorrido cabelo prateado escorrido em longas ondas, fizeram despertar-me para o impacto do acto, a aceleração da pulsação momentânea, o redescobrir da velha guarda. Ela falava-me sem cessar da "old Madeira", dos momentos de encanto e acima de tudo daquele indescritível mar, entre tardes no Lido e noites no grill do Restaurante Berlim. Eu pelo contrário, aspirava em conhecer Berlim, Düsseldorf ou Colónia. Sonhava com Bremerhaven e Hamburgo, passar a barreira da caótica latinidade do Sul da Europa. Por fim ao final da tarde, já o Jardim Inglês parecia-me mais familiar à medida que o meu pensamento se agarrava como lianas ao presente, um Guliver prisioneiro de um reino Liliputiano.

  

domingo, 10 de junho de 2018