quarta-feira, 18 de outubro de 2017

SOFIA, ENCANTADORA DE HISTÓRIAS


Sofia sorri
Sofia emana emoção, brinca connosco.
Quer ser o centro do universo, quando desabrocha o poema, a história
A expressão facial, um sorriso de criança, o mundo na sala, crianças atentas
E Sofia agradece
Sofia engrandece e se deslumbra em mímica, sons guturais, dúzias de onomatopaicas
Em risos e palmas a lembrar Marcel Marceau

Sofia encanta em cada palavra dada.

A Sofia Maul - Contadora de histórias

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA - Parte 2

Esta fotografia mostra as oficinas do antigo IFAS. Estas, situavam-se na parte interior da Rua do Castanheiro, num vasto pátio circundante dos prédios das Ruas Câmara Pestana, Rua das Pretas e Nova de São Pedro.  
Foto retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira"

Eram assim todos os santos dias! Logo pela manhã, entravam dezenas e dezenas de operários atravessando um pequeno túnel entre a entrada principal e o local de trabalho. Dentro do túnel mal iluminado, estava a porta de pequeno gabinete, talvez mais parecido com uma cabine de controlo dos empregados, onde um encarregado verificava as fichas de presença. Depois os homens para o lado esquerdo (precisamente o mesmo lado onde foi tirada a fotografia anexa) entrava nas esconsas instalações mal iluminadas onde do teto de ripas de madeira, estavam penduradas luzes "alumia mortos". Operários tratavam o vime, molhavam vezes sem conta para que não partisse. aparavam os nós e passavam numa pequena máquina que descascava em tiras. Aqui o vime estava pronto para "encher" garrafas; cestas, pequenos baús, cestos para proteger garrafas de vinho, etc... Do lado oposto, mulheres de todas as idades, bordavam, passavam a ferro tratavam de fazer bolsas em forma de meia-lua. Haviam também casais que se viam forçados à separação, como se fossem desconhecidos dentro do local de trabalho.
Pelas cinco e meia, quando um pequeno apito anunciava o fim da jornada, saíam do túnel e desembocavam na Rua do Castanheiro. Era um imensidão que descendo a referida artéria, se cruzava entre si. Os tais casais desciam dando a mão, jovens raparigas acompanhadas de namorados, idosos que se arrastavam, uns que coxeavam, outros sem um braço. ao chegarem junto à Papelaria do Colégio, separavam-se uns para a esquerda em busca do autocarro de São Gonçalo, (naquela época, os autocarros de São Gonçalo tinham o seu terminus junto ao actual Palácio da Justiça) outros caminhavam rumo a casa. Fazia-me impressão em especial um casal que morava lá para os lados da Boa Nova. Ele com um bordão parecia remar e a mulher completamente cega, amparava-se como podia tentando guiar-se no atravessar as passadeiras ou esperando na paragem. Era a tristeza do Castanheiro! Saindo de tocas, os cidadãos menos afortunados que não tinham apoios do Estado, mas tinham um reles trabalho, que não não tinham reformas, mas conseguiam ter algo para comer, viviam como podiam sem lamentações, de olhos encovados olhando o basalto do chão.
E continuo a ter visões perseguindo-me no tempo.   

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA NA RUA DO CASTANHEIRO - Parte I

Rua do Castanheiro, antigas instalações da Comissão Distrital de Assistência da Madeira e IFAS, Instituto da Família e Acção Social da Madeira. Actualmente neste edifício recuperado encontra-se um hotel.
Fotografia retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira".


A Rua do Castanheiro era uma artéria funchalense "sui generis"! Nos anos 60' do século passado, a Rua tinha como principal característica, do seu lado esquerdo até ao cruzamento da Rua dos Netos e Rua Nova de São Pedro, pequenos refúgios a que não posso chamar de quintais, antes pequenos pátios empedrados que serviam de "refúgio" ao estacionamento de veículos, de pequenas oficinas, casas de bordados e de vimes. Do lado contrário, o comprido muro que circundava o quartel militar colado à Igreja do Colégio.

Era muitas vezes logo pela manhã que ficava na varanda, a ver todo aquele movimento. Conseguia espreitar o que se passava na parada. Os soldados marchavam e contornavam o recinto, vezes sem fim. De vez em quando um graduado batia nos soldados rasos, obrigando-os a acertar o passo, chamando nomes ou ameaçando-os. Confesso que apesar da minha pouca idade, ficava um pouco enervado ao ver chicotear quem não cumpria zelosamente ordens superiores. Depois, agrupamentos marchando sem parar, saíam pela porta superior, onde entravam e saíam veículos militares. Camiões com equipamentos, transportando soldados aconchegados como sardinhas em lata, rumo a outros locais. Outros saíam, desciam a Rua do Castanheiro, a Avenida Zarco e seguiam em "manobras" até à Avenida do Mar ou ao Palácio de São Lourenço. Depois, haviam as tradicionais paradas militares em dias de juramento de bandeira, geralmente destinadas ao Largo do Colégio, local privilegiado com direito a palanque, onde diversas entidades davam o seu "amém", o apoio do regime, as altas individualidades da época,  faziam juras e mais juras com a "benção" de um qualquer bispo que prometendo o paraíso, encomendava-os para a Guerra Colonial. Eram horas amargas, com o destino marcado num qualquer navio da Companhia Colonial de Navegação e/ou Nacional. No Cais da Pontinha, soldados faziam as suas despedidas sempre muito rápidas aos familiares, tudo sob a supervisão de superiores, de Pides e Polícia Militar. E eu assisti a muitos casos... Mas o mais dramático e traumático, foi ter assistido a jovens que se atiravam borda fora completamente desesperados, tentando a tudo o custo fugir ao controlo.                

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O DIA QUE NUNCA DEVIA TER EXISTIDO

Hiroshima 

Ontem, passaram 72 anos após a deflagração da primeira bomba nuclear. Assisti a uma parte das comemorações diretamente da NHK a televisão japonesa. Alguns discursos, pedidos de preces pelas vítimas e longos documentários. Este dia, deveria ser relembrado em todos os países como o dia que nunca deveria ter existido, o dia em que os homens deixaram de ser humanos, o dia que é o mais vergonhoso da sua história. Para além de muitas opiniões, assisti a uma entrevista com o bisneto do presidente Truman, condenando o lançamento da bomba nuclear, japoneses antigos sobreviventes que dialogavam com americanos e vice-versa tanto no Japão como na América. Junto ao Memorial, crianças brincavam, adultos contemplavam as ruínas causadas pela devastação ou circundavam o jardim, onde placas identificavam fases do desastre. No Museu das vítimas do Holocausto, fotos duras e comoventes, mostravam cenas impressionantes. Uma jovem sobressaía numa fotografia. Tinha, no seu pouco tempo de vida que lhe restou, feito dezenas de origamis, símbolos da amizade e da paz entre os povos. Uma lição de vida!
   Resultado de imagem para origamis

segunda-feira, 31 de julho de 2017

AZUL ELZELINA EHLERS

Agora que se encontrava reformada, levantava-se bem cedo e desfrutava do seu pequeno quintal com vista para o Mar do Norte. Abria o guarda-sol com riscas coloridas, sentava-se na sua mesa de ferro pintada de branco imaculado, tirava a sua caixa metálica de aguarelas, os pinceis e as folhas de papel Canson. Depois, deixava-se embalar pelas ondas de espuma, pelos sonhos de Hemingway, de lutas de marinheiros, de viagens tropicais em navios de cruzeiros. Da sua casa triangular a lembrar as casa típicas de Santana, via o movimento no porto, as pontes móveis que ora subiam ora desciam, acompanhando o tráfego marítimo. E desenhava navios belos como o “France” ou o “Queen Elizabeth” com minúcia ou aguadas sempre muito coloridas. Queria a própria vida sempre colorida, confidenciava-me várias vezes. Eu acreditava na sua palavra de maruja, quando aportava a Bremerhaven, sempre Bremerhaven Stadt am Meer. Tinha curiosidade em saber da minha predilecção pelos faróis da costa, e a Ilha de Sylt ou de Helgoland, enquanto pedia-lhe para pintar “Funchais”, navios do passado, âncoras e cabos. E das folhas A3, navegavam e navegavam entre ondas revoltas, pintas de azul cobalto, azul ultramarino, sempre aquele azul anilado entre vagas e mais vagas. Um dia, pôs-se a caminho! Ou melhor, embarcou num Queen, atravessou Atlânticos para cá e para lá, desfrutando o que lhe restava da vida, como se a vida dependesse dos portos por onde passava. Depois resolveu descobrir Lisboa e na mesmo noite, queria ver a Torre de Belém, em diversas horas do dia, os tons coloridos do Tejo, as velas brancas dos iates, e partia de novo. Voltava à sua cidade do mar, ancorava como navegadora solitária ao cais do seu quintal e entre telas e navios, deixava-nos atónitos para sempre.  

Elzelina continua viajando, cruzando oceanos de azul. Obrigado pelos "Funchais" coloridos de espuma. 


sexta-feira, 21 de julho de 2017

AUF WIEDERSEHEN ANDREA YÜRGENS




Foram 40 anos de amizade. Ontem de madrugada deu entrada no Hospital em coma e, horas depois a notícia da sua partida. Mais uma estrela no firmamento!







quinta-feira, 20 de julho de 2017

A MENINA SOMBRINHA E O SENHOR GUARDA-CHUVA - Parte II




A MENINA SOMBRINHA E O SENHOR GUARDA-CHUVA

- Que antipático o Senhor Guarda-chuva! Passa a vida a desejar chuva, vento forte para estragar as minhas queridas flores, deitar ao chão os vasos de orquídeas, destruir as pétalas das minhas perfumadas rosas. Hum! Não passa de um convencido a mostrar aos outros que o seu guarda-chuva é o mais encantador do mundo. Detesto, detesto o Senhor Guarda-chuva! 

Ora certo dia, lá pelos fins do verão, o seu vizinho deu conta que o jardim da menina sombrinha estava a secar. As flores bonitas e perfumadas apareciam caídas e com uma cor castanha amarelada. As suas rosas não passavam de espetos com espinhos, os cravos perderam a cor vermelha e os seus jasmins tombados sob a terra pareciam rogar que as ajudassem no seu suplício. Enchendo-se de coragem e ao final da tardinha, quando o céu ficava já sem brilho, e as estrelas corriam uma atrás das outras para ver quem brilhava mais, foi bater de mansinho à sua porta.

- Menina sombrinha? Menina sombrinha? Do outro lado, a vizinha respondeu:

- Quem é? Quem me chama?

- Sou eu o seu vizinho Senhor Guarda-chuva! Por favor, abra  que lhe quero falar!…

Ela andou de um lado para outro, atrapalhada como se o momento fosse inoportuno, resmungando consigo mesma:

- Francamente Senhor Guarda-chuva! Que ideia essa de me vir falar a uma hora destas? E agora que faço eu? Dizia em voz baixinha. Abro!... Não abro!... É mesmo intratável… Mas por fim, após tantas idas e recuos, resolveu abrir a porta.

- Que quer vizinho?
- Ora, menina sombrinha queria ajudá-la com o seu jardim. Reparei da janela da minha casa que está tudo a ficar seco. As flores estão queimadas e as plantas suplicam água. Poderia fazer com que durante a noite, caísse umas gotinhas de água nas suas plantas. Iriam ficar de novo coloridas, os   campos, floridos e perfumados,  tão a seu gosto. O que acha da minha ideia?

Ela ficou sem fala! Pensou, pensou, e de tanto pensar a sua cabecinha parecia o catavento que estava no cimo do telhado da casa, quando bate os ventos fortes e as tempestades. No seu coração, algo lhe dizia que afinal o seu vizinho não era tão má pessoa, como realmente julgava. Até teria boas intenções dando um pouco da sua chuva pelos campos, serras e lagos.  
Decidiu aceitar a ajuda do Senhor Guarda-chuva.

Logo nessa noite, uma chuva miudinha, caiu dos céus e pela manhã ao primeiro raiar do dia. Então da janela da sua casa, viu que as gotinhas de água tinham feito um verdadeiro milagre. O seu jardim estava de novo encantador, as plantas sorriam ao vento espalhando o seu perfume e os seus vasos da janela, pareciam querer beijá-la de agradecimento. Ao lado, o senhor de olhar severo e com cara de poucos amigos, espreitava.

Que encantadora é aquela menina sempre sorrindo e cantando, como se o mundo fosse só felicidade. Então, passou-lhe uma coisa pela cabeça e decidiu cumprimentá-la precisamente na hora em que ela dançava à volta das suas rosas.
- Muito bom dia, menina! Vejo que a minha chuva foi benéfica para as belas flores do seu jardim!

Ela sorriu, um sorriso meio envergonhado e agradeceu inclinando levemente a sua cabeça.

Obrigada! Fico muito agradecida pelo seu gesto. Realmente, hoje estão com outra vida, renasceram de novo. Inclinou a sua alva sombrinha de renda resguardando o seu rosto.

O vizinho propôs darem um passeio pelo campo, mas ela arranjou mil e uma desculpas que não podia viver sem o seu chapéu de estimação e que eram incompatíveis. Quando um estava à janela, o outro não poderia estar   na outra ao mesmo tempo. O que iriam as pessoas pensarem?

Então ele teve a ideia de lhe propor - Por que não, deixar em casa a sua sombrinha e eu, o meu guarda-chuva?

Poderíamos ambos usar um chapéu… ninguém iria reparar qual o tempo que iria fazer!


Ela achou boa ideia e ambos foram dar um passeio pelos campos. Ela, com um chapéu de palha coberto de margaridas. Ele com um chapéu alto próprio do seu estatuto de vaidoso.


Segundo se consta, parece que ele lhe pediu em casamento e ambos são vistos muitas vezes juntos na sua linda casinha de madeira.


Não sei se já repararam naqueles relógios de cuco. É precisamente numa casa rodeada de um lindo jardim que ainda hoje podemos ver a menina, perdão a senhora sombrinha em dias de bom tempo e o Senhor guarda- chuva nos dias em que vai chover. De resto parecem continuar a viver felizes como nunca! Espreitem, por favor!
  
20/07/2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SOFIA E O MUNDO MÁGICO

Sofia Maul cantando, contando e encantando! Seriam crianças, seriam adultos e adultos crianças escutando, bebendo a magia das suas histórias. Obrigado Sofia pelo Domingo encantado!
Palácio Galveias 16 de Julho de 2017
 

A MENINA SOMBRINHA E O SENHOR GUARDA CHUVA (conto infantil)-parte I

A MENINA SOMBRINHA E O SENHOR GUARDA-CHUVA
(a história de uma casa do tempo na Floresta Negra e dos seus dois habitantes)    
  

A menina sombrinha passava o tempo a tratar das flores que tinha no parapeito da sua janela, ou a olhar o jardim onde cresciam rosas coloridas como um arco-íris. Cravos; miosótis; jasmins perfumados e outras flores de que não me lembra o nome. Com a sua sombrinha de renda branca, protegia o seu rosto alvo dos raios de Sol. As suas lindas faces rosadas eram como beijinhos que o astro dourado tocava na sua pele. Ela só saía à rua em dias claros e quentes mas tinha pena do seu vizinho que vivia a seu lado. Era era precisamente o contrário! Não gostava nada de sair em dias de Sol. Era o senhor guarda-chuva sempre sombrio, vivia isolado e com cara de poucos amigos. Vestia um fato preto com risquinhas brancas e um lacinho impecavelmente dobrado a contornar a sua camisa branca. Nunca saía para passear sem o seu inconfundível guarda chuva preto, evitando molhar-se e passava grande parte do tempo à janela a espreitar as nuvens que passeavam pelo céu. Depois, fazia planos que qual seria a melhor oportunidade para se fazer notar. Convenhamos, era um pouco vaidoso na maneira de vestir e aproveitava sempre para cumprimentar a sua vizinha com um sonoro: - Bom Diaaa… menina sombrinha! Nessa altura, a menina já se recolhia à sua pequenina habitação, falando sozinha com o seu coração.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

FESTIVAL IBERO-AMERICANO DE NARRAÇÃO ORAL

Com a presença da madeirense Sofia Maul, neta do antigo cientista e diretor do Museu de História Natural da Madeira, Dr. Günther Maul,  o Palácio Galveias (ao Campo Pequeno) terá um Festival de Narração Oral,  com muitos convidados estrangeiros. Crianças e graúdos terão sessões distintas com entradas gratuitas, esperando a presença de muito público. Para mais informação, consultar o programa na net.  

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O CENTRO ARTÍSTICO INFANTIL DO FUNCHAL

UMA ESCOLA DE CORES

O CENTRO ARTÍSTICO INFANTIL DO FUNCHAL

Eu teria sete anos, quando comecei a frequentar a escolinha de pintura. Na época, funcionava aos sábados durante a tarde e, era um projecto do artista António Luz Correia que em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, se intitulava de Centro Artístico Infantil do Funchal. Decorria o ano de 1966, quando ali para os lados do Pina, mais precisamente na Rua das Hortas nº. 80, uma larga arrecadação servia de refúgio a quem quisesse experimentar tintas diversas. Aguarelas e guaches, lápis de cera e até óleos, então raros para a grande maioria das crianças.        
Chegava depois do almoço, e dava asas à imaginação. Nunca o professor chamava a atenção dos poucos alunos que frequentavam as aulas. Deixava-se que o aluno criasse o que bem entendesse, da maneira que mais gostasse ou estivesse inspirado. Pegava nos pinceis e em folhas de papel A2, desenhava quantas vezes me apetecesse até ficar cansado. A estratégia era a meu ver, completamente inovadora dando ao aluno completa liberdade de executar, tudo o que entendesse. Depois, no final da aula, todos nós crianças ou mais crescidos, colocávamos os trabalhos, nas longas paredes da cave forradas a madeira. Era o culminar das nossas pequenas obras de arte!   
Como complemento, o CAIF, lançou um livro com alguns trabalhos executados pelas crianças, embora desconheça mais pormenores.



A VINDA DO COMANDANTE

Capitulo V

A VINDA DO COMANDANTE 


Quando Teresa descia a calçada, deu de caras com o Professor Walter Maül que saía da biblioteca!  Ao vê-lo acenar, foi ao seu encontro.
- Professor Walter, precisava mesmo de falar consigo! – respondeu
- Sabe estou interessada em convidar o Comandante Cousteau a visitar-nos! Que acha do assunto?
Primeiro Walter fez uma cara de espanto, como se tivesse sido apanhado de surpresa. Depois, reagindo à noticia, balançando a cabeça, lá foi dizendo que era uma óptima ideia!
- Convida-o!… Sabe a direcção? Senão, passa amanhã pelo meu serviço e como tem maior facilidade de escrita na língua francesa, redige e envia a carta pelo correio.
Teresa sentia-se encantada com o meio elogio do professor. A facilidade em conseguir traduzir e escrever, eram de facto excelentes. O alemão ficara em parte livre do compromisso de ter que pedir favores.
- Podemos apresentar um esboço para a sua vinda! Chamaríamos a imprensa para um debate e aprofundamento das últimas descobertas científicas e exploração marítima. Além disso, preciso do conhecimento do Comandante para dar-me orientações na catalogação de alguns exemplares capturados.

- Então menina Teresa, posso contar consigo para este projecto?

Ela não cabia em si de contente! Sempre tivera o sonho de viver a experiência de conhecer o seu ídolo de juventude, e sentia-se emocionada com aquele momento. Finalmente iria conhecer pessoalmente o prestigiado Comandante.



Excerto de "A MULHER QUE IDOLATRAVA COUSTEAU"

sexta-feira, 19 de maio de 2017

EXEMPLOS

Ontem recebemos um grupo de crianças de um infantário, numa visita de estudo a uma aula de música. Pelas 10 horas, começaram a chegar! Bibes amarelos, de mãos dadas aos pares, em silêncio, curiosas com todo aquele ambiente novo. Dava gosto ver aqueles meninos e meninas com três, quatro ou cinco anos, rostos cheios, olhos brilhantes, bem diferentes do meu tempo de escola onde imperavam os rostos magros, corpos escanzelados, olhos profundos e tristes, bocas de fome. Entraram na sala, sentados em semicírculo no chão, olhavam embasbacadas os instrumentos musicais, os sons que daí advinham, tudo uma novidade, tudo uma surpresa. Eram crianças que não faziam barulho; não atiravam lixo para o chão; não batiam com violências as portas dos diversos andares e não entornavam os copos de café no hall. 
Crianças sempre bem-vindas ao contrário de certos adultos.     

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O AUTOCARRO E O SIGNIFICADO DOS SONHOS

Eu estava "colado" ao passeio do Jardim Municipal. Era final da tarde, talvez muito perto das sete horas. Havia maior azáfama no ar e o motorista sentado ao volante do seu Scania, tinha já o motor a trabalhar. Na garagem passageiros de última hora, procuravam na bilheteira comprar o título de transporte que pudesse dar acesso à viagem até ao Faial, a Santana ou até mais além a S. Jorge. O bilheteiro ajudava nas bagagens ora subindo a escada traseira até ao tejadilho, onde uma grelha metálica amparava os volumes dos viajantes. E havia de tudo um pouco, desde malas a trouxas de roupa, materiais de construção comprados à pressa numa loja da cidade. Divertia-me a ver todo aquele entusiasmo já quase ao lusco-fusco, na garagem dos Autocarros do Faial, ali mesmo resvés com a Igreja Presbiteriana e do seu jardim. Um homem com uma farda branca e um tabuleiro pendurado ao pescoço, vendia doces e guloseimas. Rebuçados caseiros, embrulhados em papel branco que se colavam as dedos. Broas de milho, enfarta-brutos para matar a fome na longa viagem. Um vulto acercava-se das janelas com os vidros entreabertos, procurando vender revistas ou livros baratos. De vez em quando, alguém levantava-se e descia os três ou quatro degraus do veículo, em busca de uma fotonovela, um romance cor de rosa, ou a Crónica Feminina, muito em voga. No entanto, penso que o livro mais procurado, o best-seller do momento, era aquele que as meninas mais ansiavam, nada mais nada menos que o Livro da Interpretação dos Sonhos. E eu ficava embasbacado, indeciso, sem compreender o motivo de tanta procura. Entretanto, os passageiros retomaram os seus lugares. O automóvel iniciou a sua marcha descendo a Rua Silvestre Pestana, contornando a placa da Avenida Arriaga e desapareceu no horizonte. Só o homem com a pasta carregada de revistas, ficou sentado num dos bancos de madeira da garagem. Possivelmente, aguardaria o próximo autocarro e com ele, de novo haveriam clientes curiosos em busca de compreender o significado que cada um teria em vindouros sonhos.              

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A ÚLTIMA CRÓNICA DE BATISTA-BASTOS

Desde tenra idade que tive uma predilecção pelo jornalismo. Comecei a ler através dos jornais e apesar de ser incompreensível com os meus sete anos, o conflito do Vietnam, os soldados Vietcong, o Mercado Comum, etc., o certo é que a curiosidade pelas fotos da primeira página do tablóide do Diário de Noticias da Madeira aos Domingos, faziam com que logo pela manhã espreitasse "as últimas" do Mundo. Depois fui descobrindo a "Vida Mundial" e as histórias sobre politica, as imensas fotos do Maio de '68, a França gaulista em agonia, a sabedoria de Natália Correia. Mais tarde, apaixonei-me com as crónicas de Augusto Abelaira no D.N. de Lisboa, onde não perdia pitada do que escrevia. Li quase toda a obra de Erico Veríssimo, e passei para os clássicos brasileiros desde Machado de Assim a José de Alencar. Devorei Jorge Amado e a sua Bahia de Todos os Santos, idolatrei Zélia Gattai e ela retribuiu-me com toda a sua obra autografada. Escrevi pequenos poemas, textos para a página do D.N. Jovem nos anos 80' e ficava sempre alerta para o que escrevia BB ou seja Batista-Bastos. Sempre tive uma especial simpatia pelas suas crónicas alfacinhas, as suas histórias de amor em final de tarde de Verão à beira-Tejo, histórias de todas as cidades grandes, desprovidas de amizade, de silêncios e de afecto. Tudo é superficial, plastificado, incaracterístico, inanimado. Bastista-Bastos tinha o dom de nos despertar para o outro lado da vida, com a sua beleza em cada rosto que passa na rua, que no silêncio dos parapeitos das janelas falam sem fim. A pequena revista do Montepio que recebo na caixa do correio, trazia sempre uma história, uma crónica escrita pela sua pena, imperdível, comovente como só BB sentia. Já tenho saudade da sua presença!    

terça-feira, 21 de março de 2017

O HOMEM DAS CESTAS

Fotografia de autor desconhecido, retirado do blogue. Madeira de antigamente

O homem das cestas
carrega aos ombros 
todos os dias
almoços dos patrões
enquanto o suor em bica, cai
do seu rosto. A fome aperta
que em qualquer tasco 
se avia em meio-pão com molho
e um copo de jaquê
escorrido pela garganta.
Ele sabe que tem de ser célere, 
descendo a calçada em passadas mecânicas,
Suadas botas de vilão.

O homem das cestas
todos os dias, carrega a longa vara
de vinhático, vergando os ombros doridos, 
leva nas extremidades 
cestas e mais cestas que dançando, bailam
bailinhos de pobreza.


sexta-feira, 17 de março de 2017

CERIMÓNIAS DO ADEUS

Recordo-me de nos passados anos setenta do século passado ter lido um livro cujo título "A Cerimónia do Adeus" de Simone de Beauvoir conta os últimos anos de vida do seu marido o filósofo Jean Paul Sartre. É uma comovente homenagem ao seu companheiro de luta digna de ser lida e relida décadas depois. 
Associei o título da obra, a diversas situações análogas passadas ao longo dos anos, à medida que o tempo vai passando pelas nossas vidas e vamos também nós, dando outro valor, outra perspectiva e encaminhamento até ao final. 
A segunda situação que me marcou deveras, foi quando o nosso ilustre artista Max faleceu. Fiquei sempre um pouco intrigado com o seu desejo final de visitar na hora da despedida, a ilha de Porto Santo. A sua homenagem feito então pelo Governo Regional, numa altura em que a doença prolongada que o acompanhava, deixou-me inquieto, triste e muito comovido. Eu só o conhecia de vista e nunca falei pessoalmente com Max. Andei uns tempos a matutar o seu derradeiro amor pela Ilha Dourada, eternamente gravada na canção que cantava com o mesmo nome. 
Pouco tempo depois, tive o privilégio de conhecer Maria, como gostava que a tratassem, a pequena mulher que desde muito menina, teve necessidade de ajudas a sua mãe com alguns míseros tostões, ser admitida como empregada doméstica. Confesso que nunca me senti muito à vontade em tratá-la por "criada", mas infelizmente essa designação pejorativa ainda me incomoda. Maria partiu ainda menor rumo ao imenso e profundo Brasil, acabando por atracar na cosmopolita São Paulo. Porém, não quis partir sem que a sua "Cerimónia do Adeus", fosse a despedida à sua Madeira de infância, e em particular à sua pequena vila de Machico, de outrora. Para isso, todas as suas poupanças foram gastas em deslocar-se desde São Paulo até à sua Madeira e quando regressou tinha a convição que seria o adeus definitivo à sua terra.
     
E de novo, veio à memoria o amigo Manuel que numa hora difícil desabafou-me que iria partilhar os seus último momentos de vida, numa despedida pelos seus lugares de infância. Tinha planeado começar a sua Via Dolorosa pelo local onde nasceu, o que restava do cantinho da humilde casa, hoje transformada num edifício de alguns pisos, pela igreja onde tinha sido batizado, os locais onde costumava visitar e, quando regressou, vinha transfigurado, mas feliz por aqueles momentos mágicos ficarem perpetuados na sua memória.

Por vezes, dou conta de situações análogas e tenho dificuldade em compreender que os nossos últimos momentos sejam dedicados a despedirem-se da sua terra natal, como se fosse um parente muito íntimo.
                

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

RUGAS DE SABEDORIA - FOTOS DE GUIDA TEIXEIRA

"Rugas de Sabedoria" é o titulo de uma serie de fotografias da artista madeirense Guida Teixeira, em exposição até ao dia 10 de Março pº.fº. no Centro de Promoção Cultural de São Vicente. A fotógrafa foi buscar aos rostos de cidadãos madeirenses idosos, aos traços das suas rugas, à sua fisionomia mais vincada pelo tempo e pelo saber, a sua fonte de inspiração. A "Csa das Artes", programa da RTP-M dedicou-lhe no seu último programa, o relevo e uma pequena mas cativante entrevista. Um convite para passar por São Vicente e partilhar a beleza do nosso povo.        

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Fernando Assis Pacheco faria 80 anos

Ontem a imprensa destacava o aniversário do jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco, pessoa que muito admirava na sua escrita, crónicas e poemas bem como nas histórias que contava e nos fazia cidadãos bem dispostos e alegria de viver. Infelizmente, o Fernando partiu cedo! Os céus reclamaram a sua presença para nosso mal, e triste sina.

Certo dia, cansados de atender telefonemas para um número que tinha sido atribuido ao meu serviço e perante exagerados pedidos de enganos, resolvi que seria melhor cortar de raiz com o problema. O número da PT era de uma antiga engomadoria e que por razões que desconhecia continuava a ser utilizado. Confesso que havia dias em que a concentração no trabalho eram nulas, perante explicações, insistências não havia maneira de acabar com a praga das chamadas por engano. O telefone tocou de novo, atendi e do outro lado uma senhora de idade avançada perguntou:
- Está? É a Dona Maria?
- Peço desculpa mas é engano! ripostei
- Então não é da Engomadoria da Estefânia?
- Peço desculpa minha senhora, mas este número de telefone foi atribuido a um serviço do Estado! A Dona Maria já faleceu e a Engomadoria fechou! Do outro lado, a senhora ficou perplexa! O silêncio e a sua respiração ofegante e pausada foi cortada com a frase:
- Então e agora? Quem vai passar a roupa do meu filho... sabe o meu filho Assim Pacheco, não sei se o senhor já ouviu falar dele... tinha as suas camisas sempre passadas pela Dona Maria...
Respondi que conhecia o seu filho, pessoa que admirava pelas suas crónicas jornalisticas mas teria de arranjar outra opção. De imediato, a mãe do escritor passou a tratar-me com um carinho muito especial e eu nem sabia como sair daquele imbróglio por mim criado. Mas acabei por tentar arranjar outra opção à senhora. A partir daí a a mãe do Fernando Assim Pacheco ligava-me para dar noticias do seu filho e dos seus projectos vindouros. Antes assim, por que me sentia mais confortável em atender o dito telefone.