quarta-feira, 28 de outubro de 2020

ELE E ELA

 ELE E ELA

Ele estava sentado numa velha cadeira como sempre fazia ao final da tarde. O terraço estendia-se para além do gradeamento do quintal, onde as serranias verdejantes se abraçavam entre o céu e as nuvens. Em baixo, a baía alongava-se entre o mar e as luzes da cidade que começavam a acender-se. Era aquelo hora mágica em que ele lhe pedia para que o abraçasse e lesse algumas folhas de um livro qualquer. Pedia que lhe lesse Borges, outras vezes "Cem anos de Solidão", outras vezes preferia Sepúlveda e as histórias chilenas que seguiam com Neruda. Ela, fazia-lhe a vontade e aconchegava-se cadeira contra cadeira, como se fossem um só, lendo vagarosamente enquanto ele assimilava as frases gastas, as folhas amarelecidas pelo tempo. Tinha dificuldade em ver as letras, e servia-se da companheira para que lhe sussurra-se ao ouvido sempre as velhas palavras mágicas, aquelas que não lhe podia ler, mas podia dize-lhe baixinho:

- Eu continuo a amar-te!... Esse era o momento mágico em que a tarde deixava os últimos resquícios de claridade e as luzes se acendiam como por magia, as estrelas apareciam no firmamento e os dois se juntavam em mais um dia de felicidade. Ele só lhe pedia que não o levasse para o Lazareto, que não queria morrer num caixote do lixo entre velhos abandonados. Ela fazia juras e pedia-lhe o mesmo, que jamais a abandonasse nem a internasse num qualquer lar da cidade, jogada para um canto, desprezada pela sociedade.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O ADEUS A HELENA MARQUES

 

Passou quase despercebida a notícia do dia 21 deste mês, do falecimento da escritora "madeirense" Helena Marques. Autora de vários livros dedicados à sua ilha de eleição, a Madeira, a escritora tem um vasto curriculum ligados à imprensa escrita. Conhecia-a um dia na rua quando tinha acabado de publicar o seu último romance "O Bazar Alemão". A Assembleia Regional da Madeira manifestou um voto de pesar pelo seu desaparecimento.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

É FAVOR NÃO COLHER AS FLORES

 

Stella Matutina

Eu teria 4 ou 5 anos, acocorado junto ao vaso que se encontrava à minha frente, estava uma planta mágica única no imenso quintal, rodeado por plantas e árvores de fruto, cascatas onde escorriam fiozinhos de água, e as rochas decoravam pequenos lagos completamente cobertos de musgos, fetos de longos braços verdes que pendiam nos recantos mal iluminados pelo Sol.

Cecília, chamava-me ainda mal a luz da manhã iluminava o céu para ver o fenómeno. A pequena planta que durante a madrugada abria suas pétalas, agora com os primeiros raios de Sol, fechava-se sob si. Eu achava que era magia.

 É favor não colher flores

Seria tarde! No Parque de Santa Catarina, crianças humildes colhiam flores dos canteiros sem que os guardas se apercebessem. Provavelmente iriam oferecê-las a turistas em troca de alguma moeda onde pudessem gastar em comida ou alguma guloseima. Então virei-me para a minha tia e disse:

- Vou ali apanhar uma flor! De imediato chamou-me a atenção que as flores não eram para ser colhidas. Mas eu insistia que outros meninos tinham cortado algumas dos canteiros. Então explicou-me que se todas as pessoas colhessem as flores dos jardins, não haveriam jardins nem flores e o mundo seria menos belo.

Entre o mar e rochas vulcânicas no meio do Atlântico, entre a espuma branca da noite se fez dia, do Sol brilhou felicidade, das nuvens gotinhas caíram no meu rosto e sorri, daqueles sorrisos que só as crianças sabem iluminar o mundo. Eu continuava a plantar flores no meu jardim de sonhos até ao dia de hoje.

 

PS- Como curiosidade em 1980, ofereci a um casal amigo holandês alguns bolbos de orquídeas. Nesse mesmo ano, recebi uma carta registada de Amsterdão dizendo que uma das orquídeas tinha sido premiada. Em agradecimento, o casal fez um cruzeiro à Madeira a bordo do navio Black Watch em agradecimento.

 

Por documento escrito, decidi que em caso de morte o meu caixão não terá flores. Continuo a lembrar-me da lição da minha tia que achava pouco digno apanhar as flores. Se todos nós colhermos as flores, não restarão jardins, nem cores e cheiros, nem lágrimas, nem lamentações ou sorrisos.


DE IMAGENS E DE MEMÓRIAS

 

Genesis 1 

- No princípio criou Deus o céu e a terra.

 


 

Minha mãe dizia-me que numa das suas viagens entre Portugal e o Rio de Janeiro, ao passar pela Madeira, se apaixonou. Após vários anos a viver no Brasil, um dia voltou e casou. Depois Deus quis que eu nascesse. Então, ela subiu Santa Luzia e eu nasci no Hospital dos Marmeleiros. Seria Janeiro, quando os dias são mais frios e o nevoeiro cobre as verdes montanhas. Então, de novo Deus ordenou que eu vivesse e amasse a natureza e todos os seres vivos da Terra. Assim se fez!

E eu cresci! 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O CARRO DE CANAS É MELHOR DO QUE O MEU MERCEDES

 


Foto retirada do blogue "O Umbigo"

A criança estava estupefata! à minha frente o menino descalço olhava o meu pequeno Mercedes bourdeax comprado na Casa Maison Blanche, na Rua do Aljube frente à Sé. O pequeno brinquedo da Matchbox, abria as portas, rodava o volante, abria e mostrava o motor. Ele o menino sem nome, pediu-me para lhe mostrar o carrinho. Eu estendi-lhe a mão e ficava a olhar para o carrinho feito de canas e arames que ele fingia conduzir na rua. Como podia um carro de canas andar e virar o volante com tanta perícia? Ficamos os dois embasbacados. E brincamos toda a tarde ali para os lados da igreja de Santo António entre terrenos de bananeiras e tuneis feitos de lama, cheiro de uvas "americanas". Ambos felizes com a experiência. Por fim, pedi dinheiro à minha tia e fui à pastelaria Estrela comprar dois pirolitos. Ofereci-lhe um e ele passou a ser o meu amigo que fazia carrinhos de canas que andava na rua de pedrinhas. O meu Mercedes não!

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

OS HOMENS DA LINHA

 

Esta é uma foto pessoal com familiares meus dos chamados "homens da Linha". Possivelmente dos anos 50' do século passado, mostra os funcionários e dirigentes da Casa da Linha telegráfica da Madeira. Um momento da história madeirense quando as comunicações se faziam por cabo maritimo.

Por favor não piratear, peça autorização para o meu mail: carlos.insulana@gmail.com

Obrigado!  

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

QUANTO VALE UM SORRISO

 Estive e ver um documentário do fim de semana sobre o Japão. Tratava-se de um jornalista americano que no final da Segunda Guerra Mundial, não compreendia como podiam os japoneses sorrir depois de tantos milhares de mortos com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. 

Entretanto, contaram-me uma história dos anos 80' passada  na Madeira. Tal como a jornalista Marta Caires que escreve crónicas para o Diário da Madeira, vou contar esta:


Era Domingo! Havia um rapaz que costumava ficar na hora da missa, junto ao varandim do atrio da igreja para ver chegar a pessoa que tanto gostava. Quando terminava o ato litúrgico, ficava parado a vê-la saír acompanhada da mãe. Ela menina jovem, por vezes olhava-o sem a mínima palavra, mas sorria-lhe, um sorriso envergonhado e belo. Ele ficava observando as crianças que brincavam no átrio, meninas com seus vestidinhos brancos corriam brincando à apanhada, enquanto as mães se reuniam com vizinhos e amigos para contar as últimas novidades e os homens iam beber um copo. O jovem ficava até ao fim, vendo-a subir a ladeira e sonhava. Depois um belo dia, deixou de a ver. Achou estranho e perguntou a vizinhos onde se encontrava a sua amada. Disseram que tinha casado e partido para outras terras. Ele não conseguia compreender e continuou a esperá-la no banco do átrio todos os domingos, sempre que a missa terminava, mas da jovem, nem sinal! Os anos foram passando, e os amigos estranhavam por que ficava ali sozinho? Ele dizia que escutava as crianças a brincar e mais não dizia. Vizinhos diziam que ele estava a ficar louco, que ouvia vozes quando o átrio se encontrava vazio e crianças nem vê-las. Os seus olhos estavam a ficar cansados de tanto esperar. Ficava a sonhar com aquele sorriso absorvido no tempo, sozinho naquele banco. Os amigos já nem metiam conversa, para quê? O homem estava mas era senil. Foram quarenta anos de espera. O banco gasto de tinta verde estava ali só para o ajudar naquelas tardes em que o vento frio da serra, soprava. O sino da igreja imitava o Big-Ben de Londres com os compassados sinos que batiam as horas, as meias e os quartos. Então, um belo dia de Domingo, uma senhora acercou-se de pobre homem imóvel e perguntou-lhe se precisava de ajuda. Ele nem olhou para que lhe dirigia a palavra, mas disse que estava sentado à espera das crianças que brincavam no átrio da igreja no fim da missa. A senhora ajudou-o a levantar do banco. Ele por sua vez achou estranho tanto carinho e olhou-a nos olhos. Foi quando se apercebeu que a senhora tinha o sorriso igual à sua jovem amada. Diz a vizinhança que pela primeira vez o viram sorrir e ficaram admirados com o acontecimento. 

A Marta Caires que me perdoe, mas não foi ela que contou a história. Quem me contou foi um homem que não me lembro do nome, mas que me afiançou ser verdade.