terça-feira, 7 de agosto de 2018

A PAIXÃO PELO MAR (III)

A PAIXÃO PELO MAR


Ficava fascinado com o pequeno lago na antiga Quinta Vigia. Era circular, com plantas aquáticas e no meio um pequeno esquife em madeira. Nada melhor do que conseguir por todos os meios uma lancha em plástico porventura comprada no velhinho Talassa ou numa barraca do mercado. Ao contrário do “Titanic” esta lancha com mais de meio metro era inafundável. Eu próprio tinha feita a experiência ao colocar-me em cima daquela autentica prancha achatada. Enquanto a lancha saltava em longos loopings, eu caía no lago. Mas uma coisa era certa, era mesmo inafundável! 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AS MINHAS PRIMEIRAS AMARAGENS (II)

AS MINHAS PRIMEIRAS AMARAGENS

Ao contrário do ditado que diz que “Quem sai aos seus não degenera!” lembro-me de ficar fascinado pela água desde muito cedo. No fundo do quintal havia uma cascata com um pequeno lago, onde avencas agarradas que nem lapas, desenvolviam-se na densa humidade. Certo dia, lembrei-me de ver o que se passava e cai dentro do pequeno lago artificial. Foi uma queda com algum aparato, acabei amarando numa água esverdeada e lodenta  que cobria o fundo. Acabei “pescado” e deixado escorrer até que alguém lá de casa trouxesse uma toalha e me desse uns tabefes. Foi a minha primeira amaragem!

Duraria pouco tempo, pois a segunda foi num belo dia em que agachado no pequeno terraço de repente desequilibrei-me e caí no longo poço de lavar feito em cimento. Amparado pela imensidão de lençóis postos a corar entre a saponária de então misto de Clarim e sabão azul. Como prémio, conservo ainda um corte que marcou uma das sobrancelhas. Esta seria a minha segunda e última amaragem copiando os hidros da Aquila Airways que visitavam a cidade do Funchal.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

DE UMA MÃE COM FOBIA PELO MAR (I)

CRÓNICAS DE UM MARINHEIRO DE ÁGUA DOCE

Sem tentar "copiar" as Crónicas da beira-mar" do amigo Victor Caires, a verdade é que achei que poderia contribuir com mais umas "braçadas" para este imenso lago atlântico.


DE UMA MÃE COM FOBIA PELO MAR


Nestas coisas de mar de navios, a memória foge-me para o meu baptismo marítimo. Confesso, que nunca percebi como é que a minha mãe pode viajar de Lisboa para Santos e regressar no navio “Vera Cruz” ou viajar para a Madeira ainda nos antigos navios mistos como o velhinho “Lima” ou “Carvalho Araújo”.  Dizia-me que entrava no navio, dirigia-se ao camarote e só de lá saía depois de certificar-se que realmente o navio estava acostado.  Via-a no navio “Funchal” na sua última viagem pelo Atlântico sair do camarote cambaleando entre enjoos, sacos de plástico de emergência ou chamando o “Gregório”. Era certo e sabido que a sua alva face ficava rubra de tanto esforço, tendo equilibrar-se nos varões ou nas escadas que dividiam os diversos decks. Depois vinha a recuperação da odisseia trágico-marítima contada vezes sem fim que nunca mais punha o pé num navio. Bastava falar em mar e mudava logo a cor da face como se estivesse realmente em alto mar. 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

ENGLISCHE GARTEN - MUNIQUE

A manhã anunciava-se luminosa, quente e convidativa à caminhada. Tinha combinado encontrar-me com Else, no Englische Garten em Munique. Passaram trinta anos desde a última vez que a tinha visto e todo esse tempo incomodava-me deveras. O tempo é avassalador e inimigo da verdade!
Tínhamos convivido durante vários anos, encontros de Inverno e Outonos, reservados entre férias quinzenais marcadas com precisão alemã. Depois, os finais de tarde no topo dos Apartamentos Casa Branca, entre a Ajuda e o Gorgulho, e o infinito do mar, eram consumidos entre cervejas alemãs e "kartoffel frittata" até ao anoitecer. Agora, sentia-me na disposição de retribuir esses magníficos por do Sol, degustados entre petiscos alemães e portugueses acompanhados de Beck's e Franziskaner's geladas.
Caminhava entre caminhos de relva de um verde envernizado pelo brilho da manhã onde o aroma da fotossíntese e o azul celestial convidava à preguiça, ao "dolce far niente". Preferia simplesmente caminhar sem pressa, procurando tirar partido da manhã radiosa na capital bávara. Se era certo que trinta anos era muito tempo sem ver a velha amiga alemã, a curiosidade em reconhecer a sua fisionomia e a doce saudade própria de quem chega à velhice e procura o segredo e a doçura do seu passado. No topo de uma colina, fui confrontado entre o acenar e o som gutural característico da Baviera e Alpes. Ao encontro da sua face, os penetrantes azuis dos seus olhos e o escorrido cabelo prateado escorrido em longas ondas, fizeram despertar-me para o impacto do acto, a aceleração da pulsação momentânea, o redescobrir da velha guarda. Ela falava-me sem cessar da "old Madeira", dos momentos de encanto e acima de tudo daquele indescritível mar, entre tardes no Lido e noites no grill do Restaurante Berlim. Eu pelo contrário, aspirava em conhecer Berlim, Düsseldorf ou Colónia. Sonhava com Bremerhaven e Hamburgo, passar a barreira da caótica latinidade do Sul da Europa. Por fim ao final da tarde, já o Jardim Inglês parecia-me mais familiar à medida que o meu pensamento se agarrava como lianas ao presente, um Guliver prisioneiro de um reino Liliputiano.

  

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A SEREIA DAS DESERTAS

A sereia das Desertas

Por alturas da 2ª. Guerra Mundial, constava-se que em noites escuras, lá para os lados da Deserta Grande aparecia uma sereia exibindo um facho luminoso. Segundo parece, faria sinais aos marinheiros que passando ao largo da referida ilha. Assim contavam os mais velhos, alguns deles já nem se encontram entre nós! A bela sereia de belos e longos cabelos alvos como a espuma, era alvo de constantes debates. Homens do mar que em tascas esconsas e sujas, junto ao Mercado dos Lavradores, arranjavam discussões pela noite dentro, entre copos de vinho seco e “dentinhos”, aviados em pratos sebosos. Uns diziam que sim, acreditavam piamente na presença desta figura metade peixe metade mulher. Outros, com opiniões contrárias justificavam ser impossível. Talvez a justificação estivesse no álcool emborcado em grandes doses, corpos cambaleando como se estivessem à proa de um qualquer “pesquito” colorido daqueles que encontramos na vila de Camara de Lobos adormecidos no calhau. Certo era, em dias que as Desertas pareciam mais próximas da Madeira, anunciando a presença de chuva no horizonte, haviam pessoas que nos balcões das suas casas ou em janelas viradas para Este, apontavam as lentes dos binóculos, procurando a presença de tal personagem. Nos boatos do povo, as notícias corriam de boca em boca à velocidade da própria luz, em serões apimentadas de familiares e amigos sedentos por uma boa discussão ou em silêncio os mais cépticos, à procura de uma possível explicação para o sucedido. Pequenas lanchas e embarcações de pesca, navegavam junto aos negros rochedos na procura da sereia, afirmando terem encontrado sinais da sua presença mas nunca algo verdadeiramente satisfatório. Quanto à minha opinião, seria algum lobo-marinho que rondaria a dita ilha. O certo é que acabou por cair no esquecimento, devido à falta de provas e às notícias falsas.

Anos mais tarde, uma outra sereia apareceria ali para os lados do Lido. Esta vagueava em pleno dia com trajes mais modernos para a época, pois segundo os entendidos usava biquíni e nadava junto ao do Ilhéu do Gorgulho. Às lentes dos entendidos, dizia-se que a bela sereia afinal não passava de um travestido bem conhecido da nossa praça exibindo dotes físicos e dando espectáculo aos curiosos. Uma verdadeira fraude para mais tarde recordar!   

segunda-feira, 23 de abril de 2018

AINDA O CRIME DOS FRIAS

Uma septuagenária assassinada, o marido e a irmã gravemente feridos por assaltantes noturnos que se introduziram na sua residência.

O titulo do Diário de Noticias de 21 de Junho de 1968, fazia a manchete do vespertino madeirense.
No nº. 23 do Beco dos Frias, Manuel Abreu de 89 anos, Maria Maurício Abreu de 74 e Júlia Maurício foram o primeiro assassinado e as duas mulheres agredidas até à morte.
Durante mais de um mês, até à sua conclusão em 26 de Julho do mesmo ano, a Policia Judiciaria acabou por desvendar este misterioso crime. Segundo a imprensa da época, o casal ex-emigrantes nos Estados Unidos da América, residiam numa humilde habitação na já referida artéria funchalense. Trazendo algumas economias e tendo receio das instituições bancárias, resolveram colocar os seus bens em buracos nas paredes da casa. Possivelmente ou foram detectados por vizinhos ou em conversas, acabou por  atrair os larápios que se introduziram pelo telhado da habitação, amordaçam e assassinaram as pessoas que lá viviam.