terça-feira, 21 de março de 2017

O HOMEM DAS CESTAS

Fotografia de autor desconhecido, retirado do blogue. Madeira de antigamente

O homem das cestas
carerega aos ombros 
todos os dias
almoços dos patrões
enquanto o suor em bica, cai
do seu rosto. A fome aperta
que em qualquer tasco 
se avia em meio-pão com molho
e um copo de jaquê
escorrido pela garganta.
Ele sabe que tem de ser célere, 
descendo a calçada em passadas mecânicas,
Suadas botas de vilão.

O homem das cestas
todos os dias, carrega a longa vara
de vinhático, vergando os ombros doridos, 
leva nas extremidades 
cestas e mais cestas que dançando, bailam
bailinhos de pobreza.


sexta-feira, 17 de março de 2017

CERIMÓNIAS DO ADEUS

Recordo-me de nos passados anos setenta do século passado ter lido um livro cujo título "A Cerimónia do Adeus" de Simone de Beauvoir conta os últimos anos de vida do seu marido o filósofo Jean Paul Sartre. É uma comovente homenagem ao seu companheiro de luta digna de ser lida e relida décadas depois. 
Associei o título da obra, a diversas situações análogas passadas ao longo dos anos, à medida que o tempo vai passando pelas nossas vidas e vamos também nós, dando outro valor, outra perspectiva e encaminhamento até ao final. 
A segunda situação que me marcou deveras, foi quando o nosso ilustre artista Max faleceu. Fiquei sempre um pouco intrigado com o seu desejo final de visitar na hora da despedida, a ilha de Porto Santo. A sua homenagem feito então pelo Governo Regional, numa altura em que a doença prolongada que o acompanhava, deixou-me inquieto, triste e muito comovido. Eu só o conhecia de vista e nunca falei pessoalmente com Max. Andei uns tempos a matutar o seu derradeiro amor pela Ilha Dourada, eternamente gravada na canção que cantava com o mesmo nome. 
Pouco tempo depois, tive o privilégio de conhecer Maria, como gostava que a tratassem, a pequena mulher que desde muito menina, teve necessidade de ajudas a sua mãe com alguns míseros tostões, ser admitida como empregada doméstica. Confesso que nunca me senti muito à vontade em tratá-la por "criada", mas infelizmente essa designação prejurativa ainda me incomoda. Maria partiu ainda menor rumo ao imenso e profundo Brasil, acabando por atracar na cosmopolita São Paulo. Porém, não quis partir sem que a sua "Cerimónia do Adeus", fosse a despedida à sua Madeira de infância, e em particular à sua pequena vila de Machico, de outrora. Para isso, todas as suas poupanças foram gastas em deslocar-se desde São Paulo até à sua Madeira e quando regressou tinha a convição que seria o adeus definitivo à sua terra.
     
E de novo, veio à memoria o amigo Manuel que numa hora dificil desabafou-me que iria partilhar os seus último momentos de vida, numa despedida pelos seus lugares de infância. Tinha planeado começar a sua Via Dolorosa pelo local onde nasceu, o que restava do cantinho da humilde casa, hoje transformada num edifício de alguns pisos, pela igreja onde tinha sido batizado, os locais onde costumava visitar e, quando regressou, vinha transfigurado, mas feliz por aqueles momentos mágicos ficarem perpetuados na sua memória.

Por vezes, dou conta de situações análogas e tenho dificuldade em compreender que os nossos últimos momentos sejam dedicados a despedirem-se da sua terra natal, como se fosse um parente muito íntimo.
                

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

RUGAS DE SABEDORIA - FOTOS DE GUIDA TEIXEIRA

"Rugas de Sabedoria" é o titulo de uma serie de fotografias da artista madeirense Guida Teixeira, em exposição até ao dia 10 de Março pº.fº. no Centro de Promoção Cultural de São Vicente. A fotógrafa foi buscar aos rostos de cidadãos madeirenses idosos, aos traços das suas rugas, à sua fisionomia mais vincada pelo tempo e pelo saber, a sua fonte de inspiração. A "Csa das Artes", programa da RTP-M dedicou-lhe no seu último programa, o relevo e uma pequena mas cativante entrevista. Um convite para passar por São Vicente e partilhar a beleza do nosso povo.        

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Fernando Assis Pacheco faria 80 anos

Ontem a imprensa destacava o aniversário do jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco, pessoa que muito admirava na sua escrita, crónicas e poemas bem como nas histórias que contava e nos fazia cidadãos bem dispostos e alegria de viver. Infelizmente, o Fernando partiu cedo! Os céus reclamaram a sua presença para nosso mal, e triste sina.

Certo dia, cansados de atender telefonemas para um número que tinha sido atribuido ao meu serviço e perante exagerados pedidos de enganos, resolvi que seria melhor cortar de raiz com o problema. O número da PT era de uma antiga engomadoria e que por razões que desconhecia continuava a ser utilizado. Confesso que havia dias em que a concentração no trabalho eram nulas, perante explicações, insistências não havia maneira de acabar com a praga das chamadas por engano. O telefone tocou de novo, atendi e do outro lado uma senhora de idade avançada perguntou:
- Está? É a Dona Maria?
- Peço desculpa mas é engano! ripostei
- Então não é da Engomadoria da Estefânia?
- Peço desculpa minha senhora, mas este número de telefone foi atribuido a um serviço do Estado! A Dona Maria já faleceu e a Engomadoria fechou! Do outro lado, a senhora ficou perplexa! O silêncio e a sua respiração ofegante e pausada foi cortada com a frase:
- Então e agora? Quem vai passar a roupa do meu filho... sabe o meu filho Assim Pacheco, não sei se o senhor já ouviu falar dele... tinha as suas camisas sempre passadas pela Dona Maria...
Respondi que conhecia o seu filho, pessoa que admirava pelas suas crónicas jornalisticas mas teria de arranjar outra opção. De imediato, a mãe do escritor passou a tratar-me com um carinho muito especial e eu nem sabia como sair daquele imbróglio por mim criado. Mas acabei por tentar arranjar outra opção à senhora. A partir daí a a mãe do Fernando Assim Pacheco ligava-me para dar noticias do seu filho e dos seus projectos vindouros. Antes assim, por que me sentia mais confortável em atender o dito telefone.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CHANSONS

Domingo à noite! Trabalhos de última hora. Enquanto em rebuscava no caderno escolar, as contas a apresentar no início da semana, minha mãe escrevia sem fim à vista, resumos familiares, estudos e mais estudos sócio-económicos de pessoas carenciadas. A telefonia, essa com as suas cores verdes, onde mostrava as diversas estações e cidades do mundo, despejava música de outras paragens, de outras linguas. Se era certo que pelas 11 horas, a Emissora Nacional em Lisboa apresentava o "Sol e Touros" um programa dedicado à afición tauromática, era certo e sabido que ela mudava de estação. Não lhe interessava nada as noticias das corridas de touros, optando por estações francesas.
Eu andava de roda da última lição de francês, e começava a arranhar pequenas frases e vocabulário. Era quando tentava descobrir o significado das letras, o trautear de pequenos versos, o imitar de "Nathalie" de Aznavour!
- "La Place Rouge etait blanche... Nathalieee...
Baixinho, não vá Nathalie ouvir! A melodia só era interrompida quando ela me perguntava :
- Então? A lição está estudada? - Eu engolia em seco e ficava a soletrar no meu pensamento:
- La Place Rouge etait blanche... Nathalieeee ......

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CARTAZES DO CINE JARDIM

A carrinha WW "pão de forma" percorria as artérias funchalenses anunciando os futuros filmes do Cine-Jardim. Os mais curiosos, arregalavam os olhos para os cartazes suspensos no tejadilho da viatura. Ao lado, outro carro publicitava a Escola de Condução Progresso, enquanto um carro de bois se desloca no Largo do Pelourinho. A pedra negra de bazalto não se gastava com o tempo, agora coberta de alcatrão betuminoso. O tempo alcançava-se...