sexta-feira, 19 de maio de 2017

EXEMPLOS

Ontem recebemos um grupo de crianças de um infantário, numa visita de estudo a uma aula de música. Pelas 10 horas, começaram a chegar! Bibes amarelos, de mãos dadas aos pares, em silêncio, curiosas com todo aquele ambiente novo. Dava gosto ver aqueles meninos e meninas com três, quatro ou cinco anos, rostos cheios, olhos brilhantes, bem diferentes do meu tempo de escola onde imperavam os rostos magros, corpos escanzelados, olhos profundos e tristes, bocas de fome. Entraram na sala, sentados em semicírculo no chão, olhavam embasbacadas os instrumentos musicais, os sons que daí advinham, tudo uma novidade, tudo uma surpresa. Eram crianças que não faziam barulho; não atiravam lixo para o chão; não batiam com violências as portas dos diversos andares e não entornavam os copos de café no hall. 
Crianças sempre bem-vindas ao contrário de certos adultos.     

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O AUTOCARRO E O SIGNIFICADO DOS SONHOS

Eu estava "colado" ao passeio do Jardim Municipal. Era final da tarde, talvez muito perto das sete horas. Havia maior azáfama no ar e o motorista sentado ao volante do seu Scania, tinha já o motor a trabalhar. Na garagem passageiros de última hora, procuravam na bilheteira comprar o título de transporte que pudesse dar acesso à viagem até ao Faial, a Santana ou até mais além a S. Jorge. O bilheteiro ajudava nas bagagens ora subindo a escada traseira até ao tejadilho, onde uma grelha metálica amparava os volumes dos viajantes. E havia de tudo um pouco, desde malas a trouxas de roupa, materiais de construção comprados à pressa numa loja da cidade. Divertia-me a ver todo aquele entusiasmo já quase ao lusco-fusco, na garagem dos Autocarros do Faial, ali mesmo resvés com a Igreja Prebiteriana e do seu jardim. Um homem com uma farda branca e um tabuleiro pendurado ao pescoço, vendia doces e guloseimas. Rebuçados caseiros, embrulhados em papel branco que se colavam as dedos. Broas de milho, enfarta-brutos para matar a fome na longa viagem. Um vulto acercava-se das janelas com os vidros entreabertos, procurando vender revistas ou livros baratos. De vez em quando, alguém levantava-se e descia os três ou quatro degraus do veículo, em busca de uma fotonovela, um romance cor de rosa, ou a Crónica Feminina, muito em voga. No entanto, penso que o livro mais procurado, o best-seller do momento, era aquele que as meninas mais ansiavam, nada mais nada menos que o Livro da Interpretação dos Sonhos. E eu ficava embasbacado, indeciso, sem compreender o motivo de tanta procura. Entretanto, os passageiros retomaram os seus lugares. O automóvel iniciou a sua marcha descendo a Rua Silvestre Pestana, contornando a placa da Avenida Arriaga e desapareceu no horizonte. Só o homem com a pasta carregada de revistas, ficou sentado num dos bancos de madeira da garagem. Possivelmente, aguardaria o próximo autocarro e com ele, de novo haveriam clientes curiosos em busca de compreender o significado que cada um teria em vindouros sonhos.              

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A ÚLTIMA CRÓNICA DE BATISTA-BASTOS

Desde tenra idade que tive uma predileção pelo jornalismo. Comecei a ler através dos jornais e apesar de ser incompreensível com os meus sete anos, o conflito do Vietnam, os soldados Vietcong, o Mercado Comum, etc., o certo é que a curiosidade pelas fotos da primeira página do tabloide do Diário de Noticias da Madeira aos Domingos, faziam com que logo pela manhã espreitasse "as últimas" do Mundo. Depois fui descobrindo a "Vida Mundial" e as histórias sobre politica, as imensas fotos do Maio de '68, a França gaulista em agonia, a sabedoria de Natália Correia. Mais tarde, apaixonei-me com as crónicas de Augusto Abelaira no D.N. de Lisboa, onde não perdia pitada do que escrevia. Li quase toda a obra de Erico Veríssimo, e passei para os clássicos brasileiros desde Machado de Assim a José de Alencar. Devorei Jorge Amado e a sua Bahia de Todos os Santos, idolatrei Zélia Gattai e ela retribuiu-me com toda a sua obra autografada. Escrevi pequenos poemas, textos para a página do D.N. Jovem nos anos 80' e ficava sempre alerta para o que escrevia BB ou seja Batista-Bastos. Sempre tive uma especial simpatia pelas suas crónicas alfacinhas, as suas histórias de amor em final de tarde de Verão à beira-Tejo, histórias de todas as cidades grandes, desprovidas de amizade, de silêncios e de afecto. Tudo é superficial, plastificado, incaracterístico, inanimado. Bastista-Bastos tinha o dom de nos despertar para o outro lado da vida, com a sua beleza em cada rosto que passa na rua, que no silêncio dos parapeitos das janelas falam sem fim. A pequena revista do Montepio que recebo na caixa do correio, trazia sempre uma história, uma crónica escrita pela sua pena, imperdível, comovente como só BB sentia. Já tenho saudade da sua presença!    

terça-feira, 21 de março de 2017

O HOMEM DAS CESTAS

Fotografia de autor desconhecido, retirado do blogue. Madeira de antigamente

O homem das cestas
carerega aos ombros 
todos os dias
almoços dos patrões
enquanto o suor em bica, cai
do seu rosto. A fome aperta
que em qualquer tasco 
se avia em meio-pão com molho
e um copo de jaquê
escorrido pela garganta.
Ele sabe que tem de ser célere, 
descendo a calçada em passadas mecânicas,
Suadas botas de vilão.

O homem das cestas
todos os dias, carrega a longa vara
de vinhático, vergando os ombros doridos, 
leva nas extremidades 
cestas e mais cestas que dançando, bailam
bailinhos de pobreza.


sexta-feira, 17 de março de 2017

CERIMÓNIAS DO ADEUS

Recordo-me de nos passados anos setenta do século passado ter lido um livro cujo título "A Cerimónia do Adeus" de Simone de Beauvoir conta os últimos anos de vida do seu marido o filósofo Jean Paul Sartre. É uma comovente homenagem ao seu companheiro de luta digna de ser lida e relida décadas depois. 
Associei o título da obra, a diversas situações análogas passadas ao longo dos anos, à medida que o tempo vai passando pelas nossas vidas e vamos também nós, dando outro valor, outra perspectiva e encaminhamento até ao final. 
A segunda situação que me marcou deveras, foi quando o nosso ilustre artista Max faleceu. Fiquei sempre um pouco intrigado com o seu desejo final de visitar na hora da despedida, a ilha de Porto Santo. A sua homenagem feito então pelo Governo Regional, numa altura em que a doença prolongada que o acompanhava, deixou-me inquieto, triste e muito comovido. Eu só o conhecia de vista e nunca falei pessoalmente com Max. Andei uns tempos a matutar o seu derradeiro amor pela Ilha Dourada, eternamente gravada na canção que cantava com o mesmo nome. 
Pouco tempo depois, tive o privilégio de conhecer Maria, como gostava que a tratassem, a pequena mulher que desde muito menina, teve necessidade de ajudas a sua mãe com alguns míseros tostões, ser admitida como empregada doméstica. Confesso que nunca me senti muito à vontade em tratá-la por "criada", mas infelizmente essa designação prejurativa ainda me incomoda. Maria partiu ainda menor rumo ao imenso e profundo Brasil, acabando por atracar na cosmopolita São Paulo. Porém, não quis partir sem que a sua "Cerimónia do Adeus", fosse a despedida à sua Madeira de infância, e em particular à sua pequena vila de Machico, de outrora. Para isso, todas as suas poupanças foram gastas em deslocar-se desde São Paulo até à sua Madeira e quando regressou tinha a convição que seria o adeus definitivo à sua terra.
     
E de novo, veio à memoria o amigo Manuel que numa hora dificil desabafou-me que iria partilhar os seus último momentos de vida, numa despedida pelos seus lugares de infância. Tinha planeado começar a sua Via Dolorosa pelo local onde nasceu, o que restava do cantinho da humilde casa, hoje transformada num edifício de alguns pisos, pela igreja onde tinha sido batizado, os locais onde costumava visitar e, quando regressou, vinha transfigurado, mas feliz por aqueles momentos mágicos ficarem perpetuados na sua memória.

Por vezes, dou conta de situações análogas e tenho dificuldade em compreender que os nossos últimos momentos sejam dedicados a despedirem-se da sua terra natal, como se fosse um parente muito íntimo.
                

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

RUGAS DE SABEDORIA - FOTOS DE GUIDA TEIXEIRA

"Rugas de Sabedoria" é o titulo de uma serie de fotografias da artista madeirense Guida Teixeira, em exposição até ao dia 10 de Março pº.fº. no Centro de Promoção Cultural de São Vicente. A fotógrafa foi buscar aos rostos de cidadãos madeirenses idosos, aos traços das suas rugas, à sua fisionomia mais vincada pelo tempo e pelo saber, a sua fonte de inspiração. A "Csa das Artes", programa da RTP-M dedicou-lhe no seu último programa, o relevo e uma pequena mas cativante entrevista. Um convite para passar por São Vicente e partilhar a beleza do nosso povo.